10 de abril de 2008

Na Linha Da Utopia


As escolas são o que somos?
1. Não há redomas de vidro. O que somos no “sentir” revela-se na vida em sociedade. O que somos em casa acaba por se manifestar na estrada, nos jardins, na escola. Por vezes, nas alturas em que determinados “casos” saltam para a luz do dia, muitas reflexões centram-se mais na preocupação da atribuição de uma “culpa” para outrem do que da corresponsabilidade social de todos nos problemas comuns. Estabelecem-se, fragmentadamente, compartimentos estanques; dividem-se áreas até ao limite; tecnicizam-se as relações humanas (ou a sua desordenança violenta) no detectar das causas dos factos perturbadores. Nesse caminho de procura de respostas aos “porquês”, muitas vezes, não há tempo ou não se dá a justa importância ao essencial da “humanidade” das pessoas. Prefere-se a técnica. Mas sem o alicerce humano a construção vai-se “utilitarizando” na superfície...
2. O que de inquietante “perturba” (ou melhor interpela e desafia) a escola contemporânea brota da comunidade social. A escola, “simplesmente”, é tempo e lugar de lançar a semente, na expectativa de que o terreno queira dar frutos. A escola vive no “meio”, entre (pelo menos) dois meios: quer queira quer não, sente as complexidades do e no “meio” social em que está inserida, e, simultaneamente, está na fronteira de todas as expectativas (hoje maiores que nunca), vive no “meio” da (trans)formação das gerações... Quando alguém entra na escola, leve a sociedade em que vive, mas, com os conhecimentos adquiridos, recebe a nobre responsabilidade de aperfeiçoar a mesma comunidade social. Talvez este seja mais um esquema pré-formatado que a nova complexidade sócio-educativa rapidamente desmonta e desinstala...
3. Há muito a aprender de tudo aquilo que na sociedade vai conseguindo motivar as mais novas gerações. É imperioso tirar partido do que pode estabelecer ponte comunicativa e viver esse caminho da aprendizagem permanente. Como fazê-lo? No tempo das mobilidades…cristalizar, parar, será “morrer”, desligar, desconectar. Fronteiras novas e sensíveis, que não podem perder o contacto do essencial, o humano de cada um de nós. Se uma transversalidade inédita de factores entram pela escola dentro surpreendendo-a (por vezes desordenadamente), o eixo de todas as (possíveis) soluções só lhe pode corresponder na expectativa de sua ordem reconfigurada. Não “incluir” será desligar a “ficha” que ofereceria as situadas novas possibilidades. É certo que este é já um caminho de longos séculos, mas que “em” globalização recebe desafios na sua directa proporcionalidade.
4. A escola parece não estar preparada para os “mundos e fundos” que se lhe pedem. Talvez seja reflexo d’“o que somos”. A escola, como a vida, merece que lhe seja dado mais “tempo humano”…formação, mas com sensibilidade. Que o diga António Damásio ao recolocar no “mapa” o “sentimento de si”, do que somos de mais profundo. É esse o “lugar” invisível e supra-técnico privilegiado a moldar pessoal e socialmente. Mas nunca tantos instrumentos existiram em “mãos educandas”. Pormenores decisivos…!
http://1632un.blogspot.com Alexandre Cruz [07.04.2008]

7 de abril de 2008

Na Linha Da Utopia

O FCP é campeão
1. O Porto é campeão. Ponto final. Quase não é notícia, de tal forma que o panorama futebolístico está habituado ao triunfo dragão. O que nos últimos dias acabou por ser notícia foi, precisamente, o incómodo manifestado pelo treinador azul de se considerar a vitória do porto tão natural que nem merecia destaques de imprensa. É o que faz ganhar o campeonato tão cedo! Mas eis que o sábio presidente Jorge Nuno, entretanto, soube colocar no mapa destes dias mais um triunfo azul e branco. “Ferido” pelo apito dourado, responde com todas as letras num rasgado populismo que a caravana portista aplaude com louvado entusiasmo ao seu deus; e quanto mais ele dirige a ofensa aos “vermes” do sul, mais o entusiasmo das palmas manifesta o domínio do povo pelo senhor feudal…brilhante na gestão das emoções públicas!
2. O Porto é campeão, ou “campeoem”, à moda do Porto. Talvez mais por demérito da concorrência, mas também por mérito da organização da casa. Aplica-se o ditado que “a desgraça de uns é a sorte dos outros”. Diz-se que Pinto da Costa sabe mais a dormir que os outros todos acordados. E no meio de seus discursos inflamados também será de salientar as verdades denunciadoras do excessivo centralismo de tudo na capital em que “o país é Lisboa”. Independentemente de tudo o resto, e de um “cerrar fileiras” ou “mobilizar as hostes”, como se fosse preciso haver sempre um “inimigo”, os frutos da boa gestão estão aí. O Porto soma e segue, é campeão e já prepara as próximas épocas. Coisa bem diferente para os outros, que agora vão-se entretendo com o campeonato dos segundos.
3. O Porto é (já) campeão. Pena. Não só porque o título deve ir mudando de mão, e este ano “atribuiríamos” o título ao grande Rui Costa glorioso! Ser campeão tanto tempo antes do tempo apaga o resto da pouca energia do campeonato português. Os pontos de vantagem portista mostra bem a distância da disciplina, do rigor, do trabalho, da gestão. Se os clubes também são espelho das suas regiões, então no “norte” vive-se outro ritmo. Não é novidade que as “capitais” sempre foram mais calmas, pois a boleia da “sombra” sempre parecera garantida… As vitórias da vida, como do futebol, são dos que fazem por isso, não dos que passeiam a camisola. O FCP ganhou e com justiça, porque dentro do campo trabalhou mais; não precisa de criar ou puxar o cordelinho de que todos são “inimigos” para ganhar “contra tudo e contra todos!”. Já um disco riscado!
4. Com tal intensidade de fogo ateado pelos líderes, depois admiramo-nos das ondas de violência…! Outra coisa, ainda, é o “apito dourado”… Embora nestas lides é pena que tudo faça parte de um mesmo jogo que já há muito deveria estar limpo! Continua difícil ver esta luz ao fundo do túnel…
Alexandre Cruz [06.04.2008]

Na Linha Da Utopia

À Janela
1. O mundo corre depressa, demais, sem tempo para saborear os momentos, os instantes, os pormenores, ávida. É a nova lei da sobrevivência. A lógica da quantidade invade todos os terrenos que precisam respirar “sentido”, horizonte, para “ser” qualidade. Vivemos muito do tempo em “janelas” de comunicações informáticas, nas novas tecnologias que nos vão (tele)comandando. Um bem extraordinário, mas mais um desafio a saber conviver quanto baste com elas para haver tempo(s) de convivência com aqueles que são a razão de ser da vida, as pessoas... Para não nos deixarmos “afogar” nas “coisas” utilitárias, o auto-domínio e a distância crítica serão, hoje, uma alavanca decisiva em ordem a preservar a humanidade da Humanidade.
2. Um dia destes, na nossa cidade, no momento em que o sinal vermelho obriga a parar, reparo num rosto de uma pessoa, de seus 70-80 anos que estava à janela de uma casa. O dia estava de um sol que brilhava, iluminando as ruas e as relações das pessoas. O rosto dessa pessoa idosa, que parecia estar em pé com muleta, era como quem, procurando fugir daquela solidão que “mata”, anseia por uma réstia de luminosidade que seja o sentir a vida da cidade. O semáforo passou a verde, tem de se acelerar, senão uma buzinadela faz assustar os transeuntes do passeio. Uma última olhadela nessa pessoa e, até sempre. Quantas janelas falam solidão pelo olhar de quem ela é o único fio de contacto com a cidade dos vivos! Quantas janelas, do lado de dentro, gritam um silêncio perturbador da inquietação do “não há tempo” para amar a vida dos que nos deram a vida?!...
3. O único remédio parece ser mesmo “remediar”. Os modelos de sociedade, de quando em quando com impulsos que cortam o resto de tempo para conviver, caminham na ordem do pragmatismo alucinante. Este, muitas vezes, dependendo do património de valores, é inimigo da “companhia”, da sensibilidade, do tempo para estarmos mais uns com os outros. Mas também, noutras circunstâncias, quando esse tempo sobra não existe um “coração” afável que saiba cuidar do essencial. Este é o tempo das opções com sentido de humanidade. Quanto mais ampararmos mais seremos amparados... Se não cuidarmos dessa árvores da vida, com afecto, amor e presença, também é essa janela que nos (des)espera. Tem de haver tempo…para que o sol de todos os dias possa entrar por essas janelas de um coração humano!

Alexandre Cruz [03.04.2008]

Na Linha Da Utopia

A revolução da r(el)acionalidade
1. Os tempos actuais servem a cada semana novas tecnologias de comunicação. Cresce a olhos vistos a oferta de consumíveis prodigiosos, que dão para falar, escrever, fotografar, filmar, enviar, comprar, aceder à internet… É a revolução digital em veloz andamento, todavia, a reclamar a correspondente fronteira de convivência e mesmo da privacidade. As diferenças e diversidades de pensamentos e vida vão-se aproximando, a um ritmo que precisa da “racionalidade” como farol de referência. Mas não chega uma racionalidade “fria”, técnica, instrumental, empírica. Seja uma racionalidade humana como capacidade de pensar crítica e criativamente sobre a vida, os outros, as coisas, a Verdade. Para esta “aventura” decisiva à edificação de um futuro comum no mundo actual a “inteligência emocional”, envolvente de toda a pessoa e aberta a todas as pessoas, será o guia para se chegar a esse bom porto.
2. Há muita inteligência, hoje tornada tecnologia, que, ampliando mil potencialidades de alcance e rapidez, todavia, vive “enferma” pois na sua aplicação real revela a incapacidade de aceder à raiz humana comunitária, e amplia mesmo as desigualdades. Muitas vezes, ao mesmo tempo que vemos crescer os instrumentos, é um facto, vemos diminuir as “presenças” nos (e dos) interesses solucionadores das preocupações do bem comum. Se a época é de nova “revolução científico-racional”, teremos de conjugar os factores em ordem a uma visão relacional de tudo. Esta apresentar-se-á hoje como eixo decisivo, mesmo em ordem ao entendimento dos povos.
3. Nesse pressuposto relacional abrangente, já as finalidades adquirem outro alcance. Não se tratará de uma “razão” qualquer, fechada sobre si mesma, em modelos marcadamente teóricos, “fora da história”. Como “seres em relação” que todos somos, a própria ordem dos conhecimentos e da inteligência reconvertem-se no ideal de serviço à humanidade concreta. À medida que o conhecimento do profundo das culturas vai chegando à luz do dia global, ergue-se com maior premência o desafio do acolhimento das diferenças que, não desrespeitando a “dignidade humana” (patamar de referência comum), haverão de ser apreciadas e integradas na sua diversidade.
4. Não chegam meramente as “respostas antigas”, pois os desafios da proximidade são novos. A globalização em exercício vive-se à descoberta, não traz consigo as fórmulas solucionadoras de todos os problemas. Não será uma questão de tecnologias; essa já atingiu patamares admiráveis ao pôr-nos em contacto uns com os ouros. Será uma questão de Humanidade. A assumpção do diálogo inter/multicultural (acima de um “refrão” mas como existência social) será uma das chaves de leitura inclusiva daquilo que será cada vez mais a hiper-confluência (por vezes deordenada) de informação. É por isso que uma cidadania activa na base dos direitos humanos pode ordenar criativamente o encontro de uma “razão” que é chamada à “relacionalidade”.
Alexandre Cruz [02.04.2008]

Na Linha Da Utopia


Uma Aliança Mundial Diária
1. Cresce a consciência de que pertencemos a um mesmo mundo e que nenhuma das pessoas vive isolada. Mesmo para os pensamentos mais críticos, a interdependência é hoje um factor inalienável, numa nova consciência de ideais e valores em que “cada pessoa que se eleva, eleva a própria humanidade”. O contrário, infelizmente, também é verdade: cada ofensa ao “outro”, ao património comum ou a si mesmo, empobrece a mesma humanidade. Esta consciência planetária está aí, todos os dias, entra pelos olhos dentro; ora perturba, ora fascina. Todas as formas de comunicar trazem consigo essa dupla face da moeda humana, a verdade no melhor e no prior. Diante da super abundância da informação, provinda de todos os lados pelas tecnologias da informação (que nos ultrapassam e nos fazem sentir pequenos…), os desafios são ainda maiores. Mais potencialidades, maiores responsabilidades.
2. Tem sido realizado um caminho ao encontro da reunificação (na diversidade) da Humanidade. O séc. XX trouxe consigo, após as grandes guerras na Europa, uma nova consciência universalista, tolerante e acolhedora, espelhada na Declaração Universal dos Direitos Humanos (10 Dezembro 1948). Esta “nova contagem” do tempo humano abre a “era da globalização” e multiplica os laços de esforço ético e corresponsável diante do futuro. Entre tantas e diversas referências, apresentamos algumas daí decorrentes: Declaração para uma Ética Global (1993, Parlamento das Religiões do Mundo em Chicago); Projecto de Ética Universal (em redacção pelo departamento de Filosofia e Ética da UNESCO); criação da Fundação de Ética Mundial (1995, com a liderança de Hans Küng); Declaração Universal para a Responsabilidade Humana (1997, redigida em Viena pelo Interaction Council Congress); Carta da Terra (1999 – 2002, Aliança Internacional de Jornalistas e co-redigida pelo Conselho da Terra e Cruz Verde Internacional); criação da Aliança de Civilizações da ONU (2005).
3. A Aliança das Civilizações foi iniciativa lançada em Agosto de 2005 por Kofi Annan e com o co-patrocínio da Espanha e Turquia, tendo sido nomeado o cidadão Jorge Sampaio como Alto-Representante da ONU (a 14 Julho 2007) (hoje, 2008-04-02, na Universidade de Aveiro). Em Janeiro passado, neste 2008 - Ano Europeu para o Diálogo Intercultural, decorreu em Espanha o 1º Fórum da Aliança das Civilizações, na procura intensificadora da “apresentação de iniciativas e projectos de alto nível para fomentar o diálogo intercultural”. Os esforços estão aí, como resposta às problemáticas do encontro “inédito” do sentir e exprimir humano do mundo pós-11 de Setembro. Nunca estivemos “tão perto”; mas nunca como hoje esse encontro da proximidade faz brotar novos e decisivos desafios. Todos os diálogos são essenciais. Todos os dias, das maiores às mais pequenas coisas da vida…

Alexandre Cruz [01.04.2008]

Na Linha Da Utopia


Cristiano Ronaldo, o dom e o trabalho
1. A magia de Cristiano Ronaldo vai contagiando o mundo (do futebol). Este passado fim-de-semana o “génio da bola” fez novamente das suas, mais uma vez, surpreendendo não só os adversários dentro do campo mas mesmo o mais leigo espectador (do futebol). Um dom especial, ninguém duvida. Muito trabalho, disciplina de treinos e rigor, já talvez nem tantos assim o saibam. Valerá a pena compreender, como sentido de exigência e espírito de sacrifício e luta, que o que se passa dentro das quatro linhas do futebol terá muitas lições a dar à vida diária, especialmente daqueles que estão na fase da sua primeira formação humana. Quando se pergunta a uma criança ou adolescente o que queres “ser”, na resposta imediata de “jogador de futebol” estará uma ideia de que para o ser quase não é preciso trabalhar, que é só chutar uma bola e marcar golos; e receber toda a admiração popular e os aplausos de reconhecimento. Puro engano, que esconde os sacrifícios necessários para atingir tal patamar de altíssima competição como no triunfo de qualquer atleta.
2. Talvez na sociedade de hoje a ideia fácil de ser jogador de futebol seja das maiores falsidades de que essa “felicidade” heróica se atinge com a maior das “facilidades”. Para que as ilusões se esbatam, mesmo sobre o melhor jogador do mundo da actualidade (há dúvidas?!), Ronaldo não esconde de que só com muito trabalho é que lá se chega. É verdade que o “dom”, a arte e a “magia” também nascem com as estrelas; mas a fatia decisiva do sucesso exige muita disciplina, rigor, método, auto-domínio, sentido de equilíbrio. Que o digam alguns documentários sobre a vida de Cristiano Ronaldo, dos sacrifícios feitos, das horas a fio de treinos mesmo depois dos outros atletas irem embora, as palavras fortes e directas de exigência do treinador, o sentido de camaradagem. Nada se faz sem trabalho, nem um jogador de futebol; e nada se faz sozinho, tudo terá de ser “jogo de equipa”. O Ronaldo brilha na equipa do Manchester; na selecção nacional, quando (ainda) não há equipa, não se pode esperar todos os milagres dos pés dele!
3. Talvez nos tempos actuais, especialmente também diante dos estatutos (permissivos) dos alunos, nas escolas, a “parábola educativa” que pode ser o futebol sublinhará a insistência de que só com trabalho (muito treino) venceremos. Sem “assiduidade”, sem rigor, sem espírito de equipa, sem método (que com toda a criatividade nos surpreenda), seremos o jogador que ao fim de uma corrida cai para o lado. O futebol, como escola de formação, também nos pode iluminar como referencial de exigência educativa. Quando não, a “derrota” será certa. Os treinos de Ronaldo à chuva, ao granizo, ao sol, poderão ser o espírito de luta naquilo que se quer. Com o exacerbar das facilidades não iremos lá! Ficaremos a ver o jogo passar…, a apanhar as bolas que sobram. O segredo serão as pequenas vitórias de cada dia!

Alexandre Cruz [31.03.2008]

Na Linha Da Utopia


Facilitação legal, espelho de “vazios”?
1. No discernimento apurado sobre o valor das leis, chegaremos à conclusão de que elas terão de assumir a matriz da dignidade da pessoa humana em sentido de comunidade, não se devendo diluir a lei meramente nos hábitos e costumes sociais, como se o que contasse fosse sempre a maioria, bastando haver, mesmo para a pior das decisões, 50% mais um. As fronteiras são, naturalmente, delicadas; mas uma função pedagógica, social e ética, das leis sempre foi um referencial em ordem ao progresso humano das sociedades. Mal vai quando, simplesmente, a lei naquilo que pode ser considerado de humanamente importante, já perdeu o seu estímulo e, resignadamente, ajusta-se aos hábitos da facilitação de tudo e dos próprios valores relacionais. Que se poderá dizer ou que sentir diante de leis que parece que visam o contrário do “espírito” dignificante pressuposto da “Lei”? Se uma lei é feita com a finalidade de baixar a fasquia ou gerar permissividades, vindo legitimar formas de vida e acção não conforme os considerados valores universais, que se poderá considerar?
2. Muito acima da casuística de cada situação, as sociedades que ergueram a «liberdade» como referencial colectivo vão ditando formas legais que atingem a «liberdade dos outros». O esboço e a ideia que caminha para a total facilitação legal do divórcio, será já espelho do valor que se dá às relações humanas e nestas à própria conjugalidade? Muito acima de quaisquer questões filosóficas, políticas ou religiosas, pois é uma questão humana e social que está em causa, que considerar quando se procura afastar cabalmente a «razão» e as «razões» da separação do casal? Mesmo em situações complexas e apesar dos sofrimentos e dramas da vida em que o “mal menor” será a separação, não será que, pela ausência de sentido de “verdade” e justiça, se está a esvaziar a ética da própria lei a aprovar? As perguntas podem não acabar…
3. Já há pessoas e analistas sociais que, pelas ideias que movem este perfil de legislação agora em caminho, vão fazendo a caricatura da banalização e do oportunismo que daqui poderá advir. Saberão os promotores ou defensores no parlamento do “divórcio já” tudo o que está em causa e os sinais que vão dando à sociedade? Afinal, que concepção de família, que ideais de pertença e que relações humanas, norteia o que se procura facilitar? Quem diria, onde chegámos nas nossas sociedades: aqueles que efectivamente amam a raiz da vida, ter-se de gastar energias a proteger a comunidade primeira, a família. E agora numa quase bipolarização estratégica e mediática, entre os que são chamados de “conservadores” porque defendem a família e os seus valores essenciais, e os que, no “deixa andar” mais cómodo e prático, facilitador, vão fazendo prevalecer uma liberdade na superficialidade, já sem a responsabilidade. A par dito mesmo diz-se que estamos na “Era do Vazio” e que depois as escolas manifestam uma dificuldade em gerar ambientes relacionais dóceis! Tudo está ligado… Cada vez mais, é na simplicidade todos os dias que fazemos as grandes opções; nestas a concepção de família é hoje uma opção e um valor essencial e inalienável. Ou (já) não será? Perguntar é procurar.

Alexandre Cruz [30.03.2008]

Na Linha Da Utopia


Geração suspensa?

1. São diversificadas as atribuições aplicadas às novas gerações. Desde os anos 60 (Maio de 68), com o emergir da «juventude» como grupo social, uma multiplicidade de nomenclaturas, umas mais felizes que outras, procuram na actualidade de cada tempo compreender as mentalidades mais jovens. Habitualmente essas atribuições trazem consigo um sabor a injustiça, mas também um pouco de verdade. Injustiça porque a geração que se dá ao luxo de qualificar os vindouros é a geração que lhe está todos os dias a dar (ou não dar) a formação cultural, os desejados valores referenciais e educativos para uma vida repleta de dignidade e autêntica liberdade responsável. Um pouco de verdade, pois, muito acima da “vitimização” sempre mais cómoda (de que as causas de todos os males vêm de trás…), haverá que olhar “olhos nos olhos” das juventudes contemporâneas e gerar climas de absoluta corresponsabilidade sócio-educativa, cívica, dignificante e mesmo ecológica, no esforço de todos, comunidade, caminharmos no aperfeiçoamento daquilo que está aquém do ideal (hoje) ético global.
2. Quem não se lembra do debate levantado há anos quando, diante de manifestações estudantis ao rubro, Vicente Jorge Silva, do então jornal Público, lançou o polémico epíteto «Geração rasca»? Do mesmo modo não podemos ser indiferentes à recente qualificação «Geração em saldo» da revista Visão, referindo-se nomeadamente às dezenas milhares de jovens licenciados que vivem precariamente, no desemprego, ou, quando muito, a recibos verdes. A par de todas estas realidades dolorosas, assistimos a um certo “beco sem saída”, ou melhor em que a saída é mesmo “sair”, até de Portugal, num novo êxodo de emigração para os mais próximos países europeus ou para países de língua portuguesa. Falta-nos mais sermos cá dentro a energia que temos lá fora! Ainda, hoje, é uma multidão incontável de casais novos (e muita da geração dos 30 anos) que vive “às custas” de seus pais ou fazem dos avós os verdadeiros pais (quando há trabalho) num desenraizamento crescente da essencial ligação paterna.
3. Tempos de profunda transformação, onde a par do domínio excelente e inédito das tecnologias e de múltiplos conhecimentos, as novas gerações vão reaprendendo todos os dias a conviver com o drama e a ansiedade da incerteza quanto a quase-tudo: incerteza no trabalho, nos juros bancários, no aumento dos preços (de bens tão básicos como pão, leite, combustíveis, água), na própria vida afectiva e conjugal onde, infelizmente, os chamados “valores da família” foram quase retirados para a periferia. Vermos muita da gente das novas gerações a viver a incerteza e o desencanto desta fronteira faz com que o próprio futuro apareça como que “suspenso”… Talvez no meio de todas as incertezas e instabilidades o tempo actual precise mesmo do regresso à comunidade primordial dos afectos, a família. Esta pode ser garantia de serenidade, conforto e paz, mesmo nas turbulências da vida. Mas haverá vontade de enfrentar, problematizar e reflectir estas questões? Qual o lugar dos referenciais modelo, para termos onde “pousar”? Ou estamos mesmo a transferir tudo para uma subjectividade do “cada um é que sabe”, conduzindo a história, o pensamento e a acção, como se fôssemos «gerações indiferentes»? Será esta a qualificação do nosso presente daqui a meio século? A inquietude é sempre dos passos decisivos ao brotar da nova consciência de pertença.

Alexandre Cruz [27.03.2008]

Na Linha Da Utopia


Quando não se deve repetir…
1. Sabemos todos das fronteiras da sociedade da informação. Implacável nos seus efeitos modeladores da vida pessoal e social. Com imensas virtudes e potencialidades, mas com contra-valores que por vezes desdizem a sua própria missão. Criam deuses e derrubam regimes; abrem novas vias de sociedade plural mas, mesmo em contextos de liberdade de informação, é ténue e delicada a “linha” entre o que é legalmente permitido e o que eticamente obriga ao discernimento e à contenção. O caso repetido continuamente nas notícias da “corajosa” estudante de telemóvel na sala de aula e da “temerária” e esmagada professora subjugada pela turma ridente, é uma das imagens que merecia um crivo pedagógico, não que viesse de fora como imposição mas fazendo parte da própria função sócio-educativa das comunicações sociais. É naturalmente difícil esse consenso em apostarmos todos naquilo que, sem escamotear verdades inconvenientes, pode melhor criar formas de ser e estar em comunidade. Ninguém sabe os impactos (subjectivos) nestes dias das imagens de deseducação escolar; mas ninguém duvida que elas acabam por ser mais uma “acha” para um quadro de referência social e educativo já bem ateado.
2. As repetições sensacionalistas até ao excesso têm efeitos generalizantes e geram consequências contraditórias com o que se quer transmitir. As necessárias éticas da informação e comunicação, no meio das suas sempre ténues fronteiras de uma área concorrencial ao limite, não se podem deixar seduzir com o que o povo gosta ou com o que facilmente tem auditório. Tantas vezes, como neste caso da violência na escola, ao denunciar os males existentes acaba-se por divulgar e multiplicar esse mesmo mal. É uma pergunta delicada mas, pelas dificuldades do diálogo de gerações e numa certa indiferença dos valores onde “tanto faz” quem respeita quem, quantos estudantes da idade turbulenta vão despertando exacerbadamente para os seus direitos (de “passar de ano”) esquecendo-se dos seus deveres de pessoa, aluno, cidadão… Nesta cadeia de relacionamentos, o elo mais fraco tem merecido novamente uma exposição desmesurada e desautorizante: a professora/os professores; enquanto que o recriado sentido corporativo dos alunos vai abrindo os olhos para os seus “galões” da liberdade interminável de que são a razão de ser da escola.
3. Ainda assim esta sedutora casuística, não é verdade que este seja o quadro generalizado das escolas, e o pior que pode acontecer é a repetição caótica do mesmo “caso” que dá a sensação de estar tudo perdido. Neste contexto, também como actor da “cidade educadora”, as comunicações sociais, sendo-lhes permitido, como “ética” nem sempre devem repetir e repetir tudo o que conhecem. Ou já não há margem para isto, e o que conta é o que se quer fazer passar, esquecendo-se e promovendo deformação que se critica?
Alexandre Cruz [26.03.2008]

Na Linha Da Utopia

Reflectir e actuar na margem da prostituição
1. Realizou-se em Aveiro, a 25 de Março, uma Jornada Interdiocesana de Reflexão sobre a Prostituição. A promoção e organização foi da responsabilidade das Cáritas Diocesanas de Aveiro (www.caritas.pt/aveiro), Coimbra, Guarda, Lamego, Leiria/Fátima, Viseu e Cáritas Portuguesa. Como intervenientes será de destacar a comunicação da responsável da Associação “O Ninho” (Lisboa) e a palestra de docente da UTAD (Universidade de Trás-os Montes e Alto Douro). Ainda, e descendo à nossa realidade local da Região Centro do País, contou-se com a intervenção do Lar do Divino Salvador (Ílhavo - Aveiro), do Projecto RIA (Aveiro), das Irmãs Adoradoras (Coimbra), e das Cáritas Diocesanas promotoras e presentes. Achámos oportuno a apresentação de todas estas referências participantes pois elas são, por si, sinal social de uma preocupação de todos e que cada vez mais deve ser vista de forma abrangente e parceira, quer geograficamente quer interdisciplinarmente.
2. Das diversas intervenções iniciais, de entidades da sociedade aveirense, destaque-se a premência de um “assunto” que deve ser trazido com humanidade à luz do dia. A “prostituição” traz consigo uma perturbante conjuntura de causas e promove um leque problemático de consequências, onde, como alguém lembrava, mais uma vez “a mulher é a vítima”. Encarar o flagelo da “prostituição”, em múltiplas vertentes, é reflectir sobre as piores condições de indignidade humana; actuar neste terreno complexo, nunca foi nem será uma questão legislativa, é trazer para a luz do dia como preocupação quem por determinadas circunstâncias (sendo a pobreza uma delas) entrou no precipício. Estamos diante de uma realidade social que, muitas vezes, quase que toca o “faz de conta que não se vê”. Há uma meia dúzia de “podres” sociais que existem e persistem, mas em que a sociedade do bem-estar passa ao lado. Reconhecidos os que, servindo a pessoa na sua dignidade, vivem a inquietude e dão a vida e as suas energias para minimizar, recuperar, “amar” quem vive os sub-mundos da margem desumanizante.
3. Nas questões humanas fundamentais não há soluções fáceis, instantâneas e pragmáticas, mas uma procura concertada que capacite os que vivem a solicitude no terreno concreto. É esse o esforço meritório de entidades como as referidas que fazem “força positiva” em dar um sinal social de que sociedade terá de significar “comunidade”. Neste sentido, o que indignifica alguns deve preocupar todos. Não se espere dos Estados as respostas para tudo, seria diminuir as potencialidades de uma dinâmica e desejada sociedade civil; não se espere que a sociedade civil faça tudo sem a cooperação dos Estados, seria sinal de que estes vivem longe das pessoas. A cooperação tem veias interdiocesanas, intermunicipais, transdisciplinares e interinstitucionais. Desta forma, em rede, a reflexão fica bem mais próxima da acção solícita na “margem” da sociedade que, pelos dados estatísticos, vai crescendo com um rio… É nestas margens delicadas que se vê a “prova dos 9” do verdadeiro serviço à humanidade das pessoas. Não o discurso mas na vida; na restituição da esperança, o mesmo é dizer, na “força” que brota da Páscoa que, com este ou outro nome Altíssimo, quer chegar à Pessoa toda e a todas as pessoas!
Alexandre Cruz [25.3.8]

Na Linha Da Utopia

Páscoa, a festa da Humanidade!
1. Chega-se à Páscoa mediante a realização do caminho vivido. A Páscoa não vem de fora, brota de dentro. Sendo em si um acontecimento de percepção definitiva e intemporal, a sua lembrança na história de cada ano vem recordar-nos que há VIDA para além da vida diária. As festividades pascais não chegam de forma instantânea, nem são umas tantas coisas que se saboreiam, comem, bebem ou cantam. O sentido autêntico da Páscoa quer corresponder ao dar largas à nossa própria interioridade, abrindo as janelas do coração à esperança que insiste sempre em triunfar sobre tudo aquilo que a retarda... Como há dias de forma muito interessante dizia Bento Domingues, «fora do amor não há salvação». A Páscoa quer ser a festa do amor que brota da fonte inapagável de Deus-Pessoa e que quer “jorrar” para uma vida (e)terna.
2. A Humanidade como a conhecemos está repleta de histórias, pensamentos, concepções, filosofias, políticas, visões de personalidades que foram alavancando o futuro. Muitas dessas formas de ler a vida e as sociedades, com os impulsos do progresso, foram passando à história, e muitas delas mesmo, levadas ao limite, originaram grandes guerras e divisões sociais. Que o diga o Séc. XX! Quanto mais as concepções foram ou vão absolutizando a história concreta das coisas mais a fronteira foi ou vai resvalando para o limitado, “cego” e mesmo absolutizador interesse particular. Essa foi sempre a matriz das ideologias totalitárias, que a partir da parte procuraram explicar “tudo”. Já em contrapartida, quanto mais ampla é a abrangência do coração humano mais essa “revelação” se abre de forma integrada à totalidade de todo e cada ser humano. Este é o “passo” definitivo que faz perdurar na história da humanidade as visões supra-históricas como o pensamento das grandes filosofias ou religiões.
3. Compreender o verdadeiro sentido da Páscoa (judeo-cristã) obriga a situarmo-nos acima das coisas diárias. Pelo recolhimento, na busca de elos de unidade entre o que somos, fazemos e desejamos de melhor. Na Páscoa Deus e o ser humano encontram-se, superam-se, transcendem-se, libertam-se na “liberdade” do Amor. Na Páscoa, a história que foi visitada (no Natal) não é fechada, não é “eterno retorno”, é abertura sem fronteiras, convite que inclui quem quer “tocar” o ilimitado, quem alia todas as “razões” e todo o “sentir” emocional; como na vida existencial, tudo se junta, tudo se liberta e tudo se transfigura. Tal como o grão de trigo... Mas para dar fruto é preciso plantar e cuidar. Sendo da “razão” que não se pode esperar fruto onde não se semeou, para o surpreendente Amor Absoluto de Deus…nunca é tarde. A Mesa está posta! Mesmo para “Quem” habita nas “encruzilhadas” dos caminhos. Basta “querer” (reviver) para ser Páscoa! Tão fácil, mas tão difícil. Que todos os “filhos” queiram a Mesa do Pai!

Alexandre Cruz [19.03.2008]

Na Linha Da Utopia

As bolsas, o Tibete e os Jogos de Pequim

1. Dos últimos tempos aos últimos dias, o “efeito dominó” tem marcado o ritmo dos reajustamentos da economia mundial às novas configurações da globalização em curso. Neste cenário, “economia” vai sendo a palavra mais que repetida ganhando contornos, infelizmente (dizemos) de que “tudo” é economia; o que seria um “meio” cada vez mais vai sendo um “fim” em si mesmo, o que proporciona ambientes de estratégia e posicionamento em ordem mais ao progresso do “ter” desmesurado que no sentido de uma justa “justiça social” como referencial das chamadas sociedades desenvolvidas. Entre tantas e múltiplas causas da “crise” (ainda que se procure sempre fugir a esta palavra desmotivadora) do reajustamento é a própria especulação dos mercados americanos; especulação, um “sinal” que, de algum modo, se procura “ter mais olhos que barriga”.
2. Do outro lado do mundo, ou melhor, (hoje) ali ao lado, na China que se prepara para a “imagem” simpática e publicitária dos Jogos Olímpicos do próximo verão, vive-se o que já, felizmente, vai tendo repercussões: a histórica chacina da China sobre o Tibete vai ceifando vidas. Diversas instâncias dos Direitos Humanos e da ordem política vão lançando forte alerta sobre Pequim. Resta saber o que fará a capital do gigante acordado imperial chinês. Sabe-se de muita desumanidade daqueles lados e de que as próprias condições das áreas do “trabalho” continuam a anos-luz de uma dignidade condigna dos humanos. Mas tudo avança, tudo tem avançado, quase numa opção de “cegueira” dos poderes ocidentais, privilegiando-se as trocas comerciais aos pressupostos da dignidade humana. Claro que as realidades não são lineares; mas é certo que o novo paradigma (menor) chinês vai abrindo caminhos de retrocesso em termos de humanidade global.
3. Reparando na história do Tibete, podemos identificá-la com muitas das histórias de povos que, anexados à força, procuram a sua legítima autonomia. Assim aconteceu com o Tibete que, na sua história recente, em 1950 foi invadido pelo regime comunista sendo “província” anexada e nos inícios de 1999 foi vítima de forte campanha ateísta pelo regime de Pequim. Os factos que nestes dias temos observado são a continuação desta ofensiva e da busca de autonomia. Pelo mundo fora aqueles que, efectivamente se identificam com a liberdade “livre” não podem pactuar com a actuação do regime comunista “híbrido”. Que sentido terá, neste quadro, a realização dos Jogos Olímpicos de Pequim na China, quando lá se tem procurado iludir a realidade que agora se testemunha no Tibete? Para os atletas os jogos são importantes. Para as instâncias sócio-políticas só nas condições de humanidade e paz os jogos fazem sentido.
4. Também sabemos que os efeitos da pressão internacional, mesmo desta forma, podem ajudar à prevalência dos Direitos Humanos e da consequente autonomia dos povos e da liberdade religiosa. Quem dera que, no mundo global, todas as apostas fossem projectadas na humanidade dos humanos! Também o Tibete continua como símbolo dessa árdua luta da liberdade no Séc. XXI.

Alexandre Cruz [18.03.2008]

4 de abril de 2008

Último discurso de Martin Luther King

Discurso escrito, aqui.

I've Been To The MountainTop 2/2 (Dr. Martin Luther King )

Aqui fica a segundfa parte do discurso de MLK, aquela em que ele, no final, prevê, de certa forma, o triste desfecho do dia seguinte.
O homem da Esperança, falecia há quarenta anos, deixando atrás de si um percurso de luta pelos direitos cívicos do negros na América, com repercussões em todo o mundo - uma luta pacífica!
Deixava também à sua frente, e a todos os que cá ficaram, um enorme caminho a percorrer. Ainda!

I've Been To The MountainTop 1/2 (Dr. Martin Luther King)

Foi há quarenta anos!
Este discurso foi proferido na véspera do seu assassinato, a 4 de Abril de 1968. No final, King deixava estas frases premonitórias:

«And then I got into Memphis. And some began to say the threats, or talk about the threats that were out. What would happen to me from some of our sick white brothers?

Well, I don't know what will happen now. We've got some difficult days ahead. But it really doesn't matter with me now, because I've been to the mountaintop.
And I don't mind.
Like anybody, I would like to live a long life. Longevity has its place. But I'm not concerned about that now. I just want to do God's will. And He's allowed me to go up to the mountain. And I've looked over. And I've seen the Promised Land. I may not get there with you. But I want you to know tonight, that we, as a people, will get to the promised land!
And so I'm happy, tonight.
I'm not worried about anything.
I'm not fearing any man!
Mine eyes have seen the glory of the coming of the Lord!!»

Imagens que valem por mil palavras

Homem enrolado em bandeira portuguesa, enterrada no dia da chegada das tropas invasoras indonésias ao suco de Liquiçá e lá escondida até à libertação de Timor. Fotografia de Eduardo Gageiro

1 de abril de 2008

No país Sá Fernandes

Veja no Público a reportagem da Al-Jazira sobre Sá Fernandes, El D. Quixote de La Corrupción.

31 de março de 2008

"Os direitos dos alunos, consagrados no respectivo estatuto, são os mais abrangentes e absurdos que se possa imaginar "
António Barreto, Público, 30 de Março de 2008

29 de março de 2008


Sou membro fundador da Associação Cívica "Movimento Esperança Portugal", que vai tornar-se um partido político. Saiba mais sobre o MEP e ajude a recolhar assinaturas necessárias para a constituição do partido político (folha de assinaturas). Pode assinar qualquer pessoa qu seja maior de idade e esteja recenseada, excepto militares e polícias no activo.
Leia a entevista que dei à Rádio Aveiro FM e ao Jornal Diário de Aveiro.

17 de março de 2008

Na Linha Da Utopia


Chiara Lubich, a vida ecuménica
1. Era o tempo da II Guerra Mundial. A jovem Chiara Lubich, natural de Trento (Itália), vendo a dramática situação da Europa na decadência dos ideais humanos, vem propor uma mensagem de esperança e de diálogo, assente na condição de abertura do ser humano ao ser dos outros e ao ser de Deus. Chiara recebe agora, na hora da partida (14 de Março 2008), os frutos da sua sementeira plantada ao longo da intensa vida (de 88 anos) dedicada a anunciar caminhos de UNIDADE. Não é só o mundo ecuménico das igrejas que está reconhecido e vive a sentida hora da despedida quando (terça, às 15h) em Roma o mundo celebra o dom de sua vida. João Paulo II acolheu e apreciou a sua obra, dizendo que ela corresponde na essência ao espírito renovador do Vaticano II.
2. Chiara Lubich (1920-2008), fundadora do Movimento Ecuménico dos Focolares (www.focolares.com), do seu coração universal transborda um testemunho de vida que interessa a todos. Não foi por acaso que a sua raiz fraterna da mensagem «que todos sejam um» espelha pelo mundo fora frutos de unidade nas múltiplas vertentes do diálogo (quatro): entre católicos, entre cristãos das várias confissões, com membros de outras religiões e com pessoas de visões não religiosas. Uma verdadeira catolicidade (universalidade) que hoje torna presente a sua obra em 182 nações (também em Portugal), num universo de pertença de cerca de 140 mil focolarinos activos e na ordem de dois milhões de aderentes.
3. Enraizada na essência da mensagem cristã, como visão aperfeiçoada da “fraternidade” (emblema ideológico que a Revolução Francesa de 1789 havia desvirtuado cabalmente quando se observam os factos sucedâneos da exclusão de género e de raça), o mundo não esquecerá que ela foi a primeira mulher a partilhar a sua experiência de vida e de fé em auditórios de diferentes religiões como entre muçulmanos, hindus e budistas. A sua mensagem, como afinal as grandes mensagens, não se esgota no campo da religião mas abre-se a uma totalidade de experiência humana fraterna. Neste contexto de uma vida vivida ao serviço dedicado do bem comum estão concepções que iluminam as sociologias e as economias, propondo mesmo conceitos como a «economia de comunhão».
4. Factos muito relativos e mesmo secundários para ela como para as pessoas grandes porque simples, mas elementos identificadores do reconhecimento dos alcances da vida e obra de Chiara Lubic na sociedade civil, estará o facto dela ter sido aclamada por variadas universidades de todo o mundo com o título de honoris causa. Em áreas tão díspares como a teologia, psicologia, filosofia, economia, sociologia, política. Parte da história humana para uma história sem tempo e espaço mais um símbolo das lutas e das esperanças do passado Séc. XX. A semente caiu na boa terra e deu largos frutos! Acreditamos eles vão permanecer porque anteciparam futuros de unidade humana nas diversidades do tempo global. Mas, que não se percam esses ideais abertos, temos de compreender e sensibilizar mais para a raiz profunda que moveu a vida de gente tão generosa como Chiara Lubich. O mundo está reconhecido e quer continuar a aprender da dádiva que a inspirou em tempos conturbados como os seus.

Alexandre Cruz [17.03.2008]

Na Linha Da Utopia


Uma canção para “Ser Tempo”
1. Vivemos esta semana um tempo especial. Desde a antiguidade cristã que, na aproximação à Páscoa, na semana antecedente, se procura interiorizar de forma mais plena o centro da mensagem da revelação do Absoluto de Deus na forma personalizada, numa Pessoa chamada “Jesus Cristo”. Todas as comunidades que cultivam valores com raiz de esperança alicerçada no divino têm os seus “tempos fortes”. Para a comunidade cristã vive-se a designada “Semana Santa”; uma semana que começa com a celebração festiva do Dia Mundial da Juventude (DMJ), uma iniciativa de João Paulo II comemorada no domingo de Ramos anterior à Páscoa. Na diocese de Aveiro este ano foi escolhido o (arciprestado) Concelho de Anadia para acolher a multidão de jovens da área diocesana. Mil, dois mil jovens… o importante é sempre a vivência de cada um no sentido dos valores comunitários de uma esperança que se quer fortalecer em ambiente pré-pascal. E ficam sementes de paz para a vida!
2. Também, periodicamente, vão surgindo propostas e iniciativas de partilha através da música, esta uma arte de apurada sensibilização para a juventude. Da organização do Secretariado Diocesano da Pastoral Juvenil, como todos os anos e no quadro da proposta diocesana para a juventude, este ano na véspera do DMJ realizou-se o Festival da Canção. Em noite de tantas e ricas mensagens, coube à Paróquia de Aradas, pelo seu grupo de Jovens e numa caminhada permanente de juventude como em todas as paróquias da diocese, a construção da mensagem mais reconhecida pelo júri do festival (melhor letra e canção vencedora). Abaixo partilhamos esta mensagem que vai abrindo a ponte pascal: SER TEMPO!

Fui procurar…onde se esconde o tempo
Saber como faz p’ra não parar
É que saber uns truques dava jeito
Para poder levar-te e ensinar-te…
Mesmo a dormir!

Não o encontrei e o tempo não parou
Não sei onde falhei, o que me escapou
Eu só queria aprender a ser mais eu
E a toda a hora e a todo o momento
Saber estar em ti…

Também eu quero ser tempo
P’ra nunca parar
Ser a tua voz no vento
E poder renascer em ti
Ser o que queres anunciar

O tempo é da gente, o tempo somos nós
O tempo é a correr e a vida é uma só
Porque me falas a mim isso eu não sei
Só sei que quero ser…sei que quero viver
P’ra ser a tua voz!

O que seria de nós, sem o espírito divino?
E o que seria do mundo sem um olhar de Paz!
[ARADAS: Letra e música: Daniel Lopes. Interpretação: Daniel Lopes, Liliana Monteiro, Paulo Gravato, Tiago Marinho.]

Alexandre Cruz [16.03.08]

MEP - Rui Marques no Diga Lá Excelência (Parte 1)

Veja a entrevista do Rui Marques ao programa «Diga lá excelência» da RTP2, Renascença e Público sobre a criação de um novo partido, o Movimento Esperança Portugal.
Para quem estviver no distrito de Aveiro e quiser aderir ou apoiar, quer na recolha de assinaturas, quer noutras actividades, contacte-me por favor para para o e-mail: angeloferreira2005@gmail.com.

Portugal precisa cada vez mais dos seus cidadãos, das suas pessoas que não se revêem no actual estado de coisas.
Faça parte deste movimento!

13 de março de 2008

Na Linha Da Utopia

Educar “em” Direitos Humanos
1. A Comissão de Solidariedade Social da Associação Académica da Universidade de Aveiro (ORIGAMI), na sua organização do Ciclo de Tertúlias para a Tolerância, levou nestes dias a efeito importante iniciativa sobre «Educação para os Direitos Humanos». Um apelo e um convite fundamental aos estudantes na reflexão continuada sobre as preocupações do mundo em geral (em que continuam a ser tantas as violações dos direitos humanos); mas numa dinâmica da “transferência” dessas preocupações globais para as visões do compromisso diário no âmbito do estudo, investigação e trabalho. A dinamização esteve a cargo da Amnistia Internacional, instância de referência no zelo e promoção dos direitos humanos e na denúncia de situações de seu desumano incumprimento. Conhecer “o que falta” é sempre o primeiro passo para que não falte; a este nível a Amnistia Internacional transfere o “grito” de situações silenciadas para a visibilidade global. Um impulso decisivo em ordem à dignificação da pessoa humana no mundo actual.
2. Felizmente que hoje são muitas as sensibilidades nesta área, no esforço de proporcionar o encontro do «ideal comum a atingir por todos os povos» com às práticas concretas, em todo o tempo e lugar. São também muitas e diversificadas as instâncias e organizações que vivem e promovem esta causa de todos. Também se sublinhe que, hoje, falarmos correntemente de «educação para os direitos humanos» já é por si um sinal de conseguida e múltipla abertura; tanto da educação como tarefa abrangente e por isso que estabelece ponte com as realidades a transformar, como do referencial da Declaração Universal dos Direitos Humanos que quer chegar a todas as áreas do conhecimento (mesmo técnico-científico) para que ele seja e esteja, sempre mais, ao serviço da Humanidade. Este horizonte de diálogo transdisciplinar é, afinal, o caminho que corresponde a concepção plural e inclusiva da dignidade da pessoa humana.
3. Pese, embora, os caminhos já percorridos como eco histórico do dia «10 de Dezembro de 1948» (em que simbolicamente estamos), uma consciência mais efectiva e participada, motivada e sensibilizada está sempre em reconstrução. Enquanto o desejado desenvolvimento humano dos povos continuar a escrever páginas de sangue e indignidade este quadro de referência sócio-educativo não pode esperar. Talvez, nos tempos em que estamos, onde convivemos todos os dias as notícias da miserabilidade correndo o perigo de nos habituarmos, nestes contextos, a aposta decisiva será mesmo na qualidade da proposta como educação «em» direitos humanos, onde estamos totalmente envolvidos naquilo que comunicamos. Felizmente que hoje uma multidão vive este caminho e dá por ele a vida, o tempo, a esperança. Mas ainda falta sempre tanto para este ideal descer ao coração de cada um, e, talvez até mesmo na educação, a começar pelo filme dos brinquedos para crianças (muitos carregados de “guerra”)! O “refrão” dos “direitos humanos”, por si, tem vida curta; para ir mais longe precisa de incluir a “dignidade humana” na sua raiz aberta à Totalidade que cultive e aprecie o que é SER e existir no mundo com os outros. O caminho longo da dignidade!
AC [14.3.8]

12 de março de 2008

Na Linha Da Utopia


Memória e vida, para que seja Páscoa
1. Muitas vezes ouvimos gente adulta e influente nas sociedades a recordar com nostalgia os tempos idos em que as festividades mobilizavam os lugares, as ruas e as famílias em torno de valores esperançosos e em ordem à renovação de ideais e princípios estimulantes ao bem comum. Naturalmente os tempos são outros, e importará nem ter uma saudade como se antigamente fosse tudo bom, nem simplesmente esquecer o passado como se esse nas suas tradições não tivesse razão de ser. Talvez este seja um dos eixos da encruzilhada da civilização actual, onde se procura dar um “salto em frente” de tal maneira amplo que acabamos por não saber em que se alicerça a própria vida; em contrapartida, verifica-se essa memória gratificante (hoje) das memórias do passado, considerando-se o quanto elas nos constroem na nossa própria identidade. Mas neste contexto a maior interpelação é sentir a completa indiferença de quem tem essas memórias e não vive qualquer preocupação em “passar” um certo testemunho aos seus vindouros, até na preocupação cultural de que vão apreendendo “sentido”em todo o património (e muito dele é religioso) que os rodeia.
2. Não admira, por isso, a dificuldade em fazer passar a mensagem da cultura, da vida e da espiritualidade. Até da própria dimensão pessoal mais básica (diríamos) aconfessional, humana, sem ligação a qualquer igreja ou religião, pois a “menoridade cultural” ou o preconceito ideológico ou, ainda, muito do peso institucional das religiões e igrejas, afastam o ser humano contemporâneo da sua caminhada existencial mais profunda. Ninguém dá o que não tem. E é certo que para ler e partilhar toda a panóplia de significados que as festividades e celebrações comportam como “história viva” e actual é preciso um grande caminho de busca de sentido. A Páscoa (passagem) de há cerca de três milénios para cá, e numa dinâmica aperfeiçoada pessoalmente há 2000 anos, inscreve-se nesta mesma fronteira. Quem a conhece “por dentro” vê nela o centro de referência no qual alicerçar um sentido a dar à vida; quem a lê no imaginário público sente um resto interessante de tradição curiosa com sentido sociabilizante; quem não a conhece, não quer conhecer e não quer que ela se partilhe (esquecendo que dela derivam mesmo os valores sócio-democráticos da tradição judeo-cristã) então vai mesmo procurando apagar da memória colectiva as centelhas da sementeira de significado e sentido…
3. É o tempo das opções, entre um “Algo/Alguém” que nos estimule positivamente ou um “quase-nada” de ausência de fundamentação do sentido da vida. Neste erguer-se-á o “ter”. Até como significado cultural (se já não na essencialidade altíssima do que a Páscoa é enquanto fonte de “vida nova”) torna-se essencial o compreender a memória histórica (e seus valores) que nos precedeu. Será isto importante? Que memória queremos que perdure no coração nos nossos filhos? Serão só as coisas da Páscoa?

Alexandre Cruz [12.03.2008]

Na Linha Da Utopia


A ética do “tempo” em educação
1. É verdade que muitas das realidades da vida podem ter soluções rápidas e pragmáticas. Assim esta visão instrumental, normalmente, se aplica a uma obra a realizar, uma ponte a construir, um jardim a tratar. Obras relativamente fáceis! Também é certo que muitas soluções hoje têm a matriz tecnológica e informática, numa aceleração eficaz de processos que procura aliar rigor e qualidade que se difundam rapidamente. Mas não podemos correr o perigo de querer transferir aquilo que são processos da ordem técnica e prática para uma grande multidão, pois no “meio”, naturalmente, há sempre muito ruído que obriga o ritmo a ser outro se se quer chegar a bom porto. Faz lembrar coisas tão simples e tão práticas como uma “pista de escuteiros” em que o tempo que leva um preparador a percorrer esse caminho é multiplicado por três na experiência de grupo; ou então diante de uma assembleia de 1000 pessoas a organizar uma iniciativa comum teremos de repetir diferenciada e metodicamente várias vezes as mesmas ideias a ver se fica “tudo em todos” e mesmo assim…! Teremos de redescobrir mais o realismo e a organização do tempo “qb”, como assimilação e sabedoria consistentes, naquilo que querem ser, efectivamente, os projectos comuns.
2. Sendo-se sempre contra todo o imobilismo que paralisa as fundamentais e necessárias renovações, o certo é que o fulgor das “pressas” unilaterais nas reformas, do olhar em frente esquecendo os “lados” que afinal são as bases de sustentabilidade estrutural, esta prática sempre trouxe consigo grandes anticorpos. Tantas vezes a falta de consciência efectiva da realidade de decisores ou a proclamação de decisões a um ritmo inassimilável por quem está no terreno concreto, este facto, coloca-nos diante de dilemas que dividem o que existe de seguro e bom e multiplica a desagregação e instabilidade. Muitos portugueses têm sido autores e vítimas tanto de seu imobilismo como, talvez mais ainda, dos “repentismos” entusiastas da gestão da “coisa” e causa pública. O tempo do dia-a-dia precisa dessa motivação redistribuída harmoniosamente, evitando dessa forma, quanto possível, os solavancos das emoções.
3. Particularmente, nesta problemática, nada nos interessa (politicamente) quem recua, quem avança, quem ganha e quem perde. Um perdedor está garantido: a comunidade e, no fundo, o país. Claro que os discursos vão “torcendo” o que podem para assumir a “gradualidade” no tempo como factor humano; tudo porque tal como não se pode querer um oceano num rio, não será ético pedir às escolas o “repentino” que áreas tão abrangentes como a educação (o ensino, as famílias, os estudantes, as comunidades locais) não podem dar. Educar nunca foi nem será acto instrumental; se fosse seria bem mais fácil mas menos determinante no desenvolvimento dos povos. (Ofereciam-se tecnologias e pronto…!) Os tempos de recuo estratégico que se seguem (chame-se outro nome!) demonstrarão que houve tempo perdido em não compreendermos a grandeza, abrangência e complexidade de tudo o que está em jogo. Um refrão destes dias tem sido que há muitas instituições do país especializadas em Educação e que não foram chamados a construir (n)este processo. Há reflexões e lições educativas de fundo a serem tiradas de tudo o que acontece(u)… Seria um passo de coragem(?!).
AC [11.3.8]

Na Linha Da Utopia


Sarkozy, o feliz e a liderança
1. A popularidade está a cair a pique. Para os franceses desejosos do retorno da França à liderança europeia, o apaixonado Sarkozy faz hoje com que se coloque a pergunta: «Este homem pode ser o presidente da França?» São sondagens, inquéritos, comentários de opinião em torno desta questão após a simbólica “derrota” eleitoral destes dias. A promessa de “Sarko” foi a nova “revolução”. No quadro prévio das sempre naturais insatisfações político-sociais, um designado “efeito Sarkozy” conseguiu convencer a sociedade desejosa de um “dom Sebastião” à francesa. Os franceses acederam, acreditaram nessa promessa. Não estavam era a contar que o presidente fosse tão rápido a passar das promessas eleitorais a um centrar da vida presidencial na sua vida pessoal. Os jornais vão atribuindo os títulos: «Sarkozy, a política sou eu». Começou por ser omnipresente em meia dúzia de assuntos com visibilidade social e libertadora, visando reconciliar uma França credível com a Europa. Diante do pensamento historicamente clássico francês, rapidamente a sua presidência passou a estar centrada na esfera «comportamental». Uma nova revolução; diríamos, (r)evolução a mais para um povo que também aguarda quem restitua a ordem da dignidade política.
2. Em escassos meses o presidente francês foi criando modas e manifestando uma «felicidade» extraordinária. De sua afirmação diz que pode ser-se Presidente da República e ser-se feliz ao mesmo tempo; como ele diz: «Eu sou feliz». Sobre a sua relação com Carla Bruni, do seu gabinete diz-se que «ele embriagou-se de felicidade no momento em que os franceses a perdiam» (Público, 9 de Março). Pretendendo reinventar a França para o século XXI, inicia por recriar a própria imagem de presidente, dessacralizando, sendo tão igual aos franceses que acaba por provocar admiração e «choque». No contexto dos resultados eleitorais do último fim-de-semana, não tanto as políticas mas o político parecem incomodar os franceses. Uns chamam-lhe «vulgar» (comum), outros que seu comportamento é «imaturo», outros, os psicólogos, ainda, que é «narcísico». Diz-se também que alia traços de grande coragem e intuição mas simultaneamente de «egolatria e de uma vaidade sem limites». Panorama complicado para o presidente em que os franceses acreditaram. E ainda agora estamos no princípio da nova felicidade do presidente, chamado há alguns meses de «hiper-presidente». Um nosso professor dizia que quanto maior é a subida, maior é a queda. Até onde chegará o líder Sarkozy e a sua felicidade?
Alexandre Cruz [10.03.2008]

Na Linha Da Utopia


A Faixa de Gaza
1. Há pedaços de terra que estão cheios de sangue. Não só da história passada, mas das histórias que se continuam a escrever no presente. E Deus não tem nada a ver com isso. Os homens é que O “usam” como argumento para atingir os seus fins de domínio sobre “o outro”. Os últimos quatro mil anos da história das terras chamadas israelo-árabes espelham, de forma emblemática, esse desconcerto e desentendimento humano, em que a cada século que passa vão-se juntando mais páginas de conflitos, ao que parece, intermináveis. Claro que, de relance, somos pequenos para compreender tanta informação, tantos dados em jogo, tantos cruzamentos de raças, religiões, espaços, locais, sinagogas, mesquitas, igrejas, sentimentos, emoções, razões, cegueiras, justiças, injustiças, verdades, fanatismos… em que cada palmo de terra condensa a luta de uma vida e de muitas vidas. Repetimos, Deus (que é Amor) não tem nada a ver com isto. Ele até tantas vezes sublinhou e reafirma que o único “lugar físico” que “quer” é o “coração” humano, a consciência-ser, «em espírito e verdade».
2. Não compreendendo isso, poderemos nesta geração correr o perigo ignorante de atribuir às religiões e a Deus aquilo que é pura e unicamente obra interesseira e dominadora dos homens, o que resulta que se chame “terra santa” a uma terra nada santa nas incompatibilidades de tanta história em que só mesmo pelo “perdão da memória”, como tanto falava João Paulo II, é que lá iremos ao caminho da paz. A triste história continua e hoje as ONG’s que estão no terreno vêm dizer que se vive na Faixa de Gaza o pior período de crise humanitária desde a guerra de 1967. As culpas da desgraça, “taco a taco” tal como a guerra, vão-se atribuindo reciprocamente entre Israel e o Hamas… No passado recente as razões são que, após os disparos de rockets pelo Hamas em Janeiro, Israel impôs o actual bloqueio a Gaza na data de 17 de Janeiro e raids aéreos frequentes têm feito dezenas de mortos na famosa Faixa de Gaza. Do “bloqueio” de quase-tudo o essencial à vida diária vem um relatório das ONG’s de cenário dramático intitulado «Faixa de Gaza: uma implosão humanitária».
3. Os Estados Unidos, na fronteira da cena internacional e das imagens perturbadoras que vão chegando, pedem um “alívio” do bloqueio para garantir as condições de humanidade. O quarteto de negociadores (Estados Unidos, União Europeia, Rússia e Nações Unidas) vai avançando na gestão da mediação do cenário político. As ONG’s no terreno vêem-se e desdenham-se para socorrer não havendo condições de luz eléctrica para fazer intervenções clínicas, água potável para matar a sede, esgotos a irem para o mar, corte de comunicações, tratando-se de uma população bloqueada em que mais de 1,1 milhões dependem da ajuda alimentar. Alguns analistas vão falando de “genocídio”. Os céus de Gaza respiram a pólvora, ar poluído que, independentemente das políticas ou dos grupos atiçados de fanatismo político e/ou religioso, vai mostrando a limitada incapacidade humana. Se a história de séculos o confirma, a história presente continua esse caminho. Nada de novo, porque tudo velho. Nenhuma das razões justifica o injustificável desumano que persiste. Ao menos não sofram as populações. Precisamos de aprofundar o diálogo de civilizações para compreender a história e propor uma nova memória de paz. Ou seguir-se-á indefinidamente a contra-ofensiva?
Alexandre Cruz [09.03.2008]

NA LINHA DA UTOPIA

Uma mesa comum: «E os alunos?»

1. O que temos verificado no panorama da educação suscita muitas reflexões por este país fora, umas silenciadas outras expressas. Educação, área estruturante e delicada, trabalhada esforçadamente nas últimas décadas por gerações de líderes, professores e famílias, estudantes e entidades. Muitas propostas ou indicativos estimulantes que hoje se consideram pertinentes já são pensados há muitos anos por quem foi abrindo caminhos de uma educação inclusiva e participada pela sociedade a quem, afinal, se destinam os educadores. Da outra face da moeda, muitos défices e limites do “sistema” têm merecido os reparos denunciadores de um consenso na razoabilidade que tarda em chegar. Sem alarmismos, mas sem superficialidades, estas últimas semanas têm sido más demais para ser verdade. Quase um beco sem saída; radicalizaram-se as posições em sector tão fundamental (e alimentador) de uma desejada vida social tolerante, compreensível e comprometida com o essencial da tarefa educativa: os estudantes.
2. Numa simples opinião, talvez ao ponto onde chegámos seja necessária mesmo uma “terceira via”: uma “mesa” onde se recentre o essencial e onde não se sentem as inflexibilidades dos dois lados, mas sim os dois ângulos da questão. Venha e cultive-se uma mentalidade sócio-educativa (o “trunfo” dos países desenvolvidos) onde não adianta nada (1º) nem demitir ministros da Educação, (2º) mas onde estes nas políticas que representam saibam construir uma via comum. As inflexibilidades e intolerâncias não conduzem por nenhum caminho, a não ser o pior. A fronteira é ténue, ou já foi mesmo ultrapassada. Quanto mais as versões político-partidárias avançam com as bandeiras dos gritos e das demissões ministeriais (seja de que lado for), mais difícil se tornará a comunidade escolar, a sala de aula, o recreio, o envolvimento dos pais, das autarquias. Para descer basta um instante, para subir a qualidade são necessários anos. Também aqui a noção de reformas que temos carece de uma sustentabilidade que inclua, à priori, a globalidade das expressões.
3. Reformas (como as revoluções) à força, não só no “momento seguinte”, mas, como vemos, “durante”, resulta no panorama caótico impensável. As noitadas dos professores nas ruas do país têm sido estonteantes, no que se diz e no cansaço que gera para ao fim de horas ‘dar aulas’; a “revisão” (natural em processos democráticos) do processo de avaliação de professores tarda demasiadamente, como se fosse algo supra-dogmático. Queremos buscar razões para a “confiança”, mas, pelo “tesouro” da educação que (não) vemos, só abundam cogumelos desagregadores. Talvez tenhamos de começar do princípio e criar um slogam no ser profundo de cada cidadão: precisamos de nos sentar a uma mesa comum e reflectir sobre «E os alunos?». Não sabendo para onde vamos, sabemos que será pelo que temos visto. Claro, é preciso grandeza de Humanidade para reconhecer que aqui ou ali todos falhámos e queremos melhorar, sem que isso tenha de significar o “atirar pedras” demissionárias. Para quando esta grandeza humana? Conseguiremos mudar esta matriz infeliz da nossa história? Até quando?!
Alexandre Cruz [06.03.2008]

Na Linha Da Utopia

As duas gerações

1. Nas comemorações dos 18 anos de edições, o jornal Público elabora um interessante exercício de ver como estávamos há 18 anos, no confronto contemporâneo dos que nasciam com os que na altura atingiam essa idade. Dos que nasciam no ano do Público (1990) aos que chegavam a considerada maioridade de 18 anos já parece haver uma distância tal como se se tratasse de muitas décadas de diferença. Ajuda-nos este confronto a tomar consciência que desse tempo para hoje as velocidades com que comunicamos aproximaram o particular do universal e o mundo da casa e vida de cada um. Nascendo, em 1989, com a queda do Muro de Berlim uma nova configuração planetária (com o fim do último totalitarismo, soviético), no mundo da época respirava-se de alívio pós-guerra fria na expectativa realizadora e esperançosa de uma verdadeira pacificação global.
2. Nesta nova conjuntura de liberdades abertas (não há liberdades fechadas!), talvez os anos 90 tenham sido a época histórica de uma autêntica “epopeia tecnológica”, com o boom eufórico da universalização das múltiplas formas de comunicar e sentir o mundo presente. Este mega exercitar da globalização, de tendências marcadamente hegemónicas e de domínio do económico em detrimento das diversidades, das ideias, políticas e culturas, sofre um forte revés nos atentados do 11 de Setembro de 2001. Talvez tudo tenha andado depressa demais em termos de tecnologias e de aproximação estratégico-científica e comunicacional, porque talvez tudo tenha andado devagar demais no que se refere ao verdadeiro (re)conhecimento da essência da Humanidade nas suas diversidades e nos seus “porquês”. O incompreensível “grito” do 11 de Setembro traz consigo um arrepiar de caminhos que, nas inseguranças e nos medos, pode reconduzir a história a alguns fechamentos geradores de desigualdade e exclusão.
3. A geração portuguesa que nasceu há 18 anos vive hoje com as mãos cheias de tecnologia mas, não tendo assistido ao seu emergir (algo que quem na altura tinha essa idade foi presenciando), corre o perigo crescente da absolutização das “coisas” deitando a perder o essencial da humanidade pessoal e social que são as relações humanas. Os resultados estão aí: Como refere o estudo do Público: «Acreditam: neles…» e «Não acreditam: no país, no casamento, nos outros». Num país diferente para melhor em muitas realidades mas na mesma em relação a muitas desconfianças espelhadas em mega casos de justiça e a sua continuada incerteza, a geração que está aí confirma os receios de uma (pseudo-)cidadania da indiferença sócio-política que, de quando em quando, costumamos criticar... Talvez tenhamos muito a aprender com as gerações anteriores; mas para isso é preciso o “diálogo de gerações” e mesmo o diálogo intercultural. Nestes diálogos, é certo que usando todas as virtualidades que nos aproximam, mas… preservemos e enalteçamos a presença humana.

Alexandre Cruz [05.03.2008]

Na Linha Da Utopia


Vencer o Pessimismo
1. Não se pense que é só em Portugal que o pessimismo vai alastrando, nem se julgue que o factor de crise económica é o ‘cerne’ da questão e a sua raiz. Talvez as ondas das emoções sociais sejam como as bolsas de valores, depois de fases de optimismos em que tudo parece correr às mil maravilhas (dos anos 60-70) vem a crise do reequilíbrio e reajustamento à realidade (em fins e início de milénio). Sublinhe-se, um certo sentir («difuso» ou infuso) de pessimismo só pode ser superado com o compromisso de cada dia, não havendo fórmulas mágicas que solucionem todas as questões em simultâneo na sociedade, hoje, em rede. Normalmente, neste lado do mundo em que nos fomos habituando a uma certa qualidade de vida, só queremos que a “rede” funcione para as coisas positivas, esquecendo que não há bela sem senão e que, talvez, os múltiplos processos de globalização em curso são a origem das novas sensações a reconhecer e integrar.
2. Como em tudo, o primeiro passo é “compreender”. Por isso, não admira que lendo as transformações em andamento, em que por exemplo o emprego para toda a vida é realidade já mesmo do passado, diante das novas inseguranças, a resposta humana não pode ser a resistência da luta contra os moinhos de vento das transformações; a tensão da resposta terá de se projectar no encarar, formar, lutar, procurar, espevitar a esperança na redescoberta dos mecanismos de vida dinâmica, onde a pessoa é, efectivamente, parte das soluções que ela sabe (eticamente) criar e reinventar. Ficar parado, desmotivado, resignado, a ver o mundo passar e perder tempo queixando-se na contínua ‘lamúria’, será afogar-se num pessimismo doentio que nos diz que se vivêssemos em outros séculos ou noutros sofridos continentes da actualidade já há muito teríamos padecido. Talvez na raiz do pessimismo também esteja uma mentalidade de impossíveis expectativas em relação à vida, confundindo muitas vezes (como há tempos dizia D. José Policarpo) felicidade com facilidade.
3. Muitas gerações que nos precederam tinham muito menos para viver. É natural que os tempos são outros, mas muitas vezes os hábitos da fartura (e fartura mal gerida, como o comprovam muitos supérfluos e mesmo o grave problema da hiper-obesidade de muitas crianças) acabam por deixar uma sementeira mais do “deixa andar” do que da palavra de ordem “vamos lá!” É claro que não se podem ocultar os cenários realistas (complicados) que vivemos, estes espelhados em variados relatórios que sempre surgem; mas toda a aposta na mentalidade terá de ser de investimento em ideias, esperança, cultura, formação, valores, ética, compromisso, cidadania, envolvimento (as palavras poderiam não acabar). No fundo, a diferença entre o pessimismo e o optimismo está no património de referências do coração humano... Quem dá valor às pequenas coisas só tem razões para agradecer o dom da vida e redescobrir energias do compromisso diário. Multipliquemos uma confiança realista (esta que não se confunde com muito do optimismo fácil proclamado pelos poderes), sem esquecer as dificuldades, mas não permanecendo nelas; faz mal, até à saúde (pessoal e social) e desmobiliza a reacção em ordem ao compromisso diário.
AC[04.03.08]

Na Linha Da Utopia


A bondade de coração
1. As encruzilhadas do passado séc. XX fizeram chegar até nós ecos de gente cuja bondade permitiu a redescoberta da esperança em caminhos tão tortuosos. Aqueles que, colocando as armas de lado, foram obreiros das “revoluções pela não-violência” deixaram atrás de rastos de luminosidade que, enquanto houver memória humana, hão-de perdurar no que de melhor a humanidade é capaz. É que diante das guerras e intolerâncias responder com as “armas” da paz é atitude que só pode provir de corações grandes, daqueles que sabem que podem perder uma ou outra “batalha” (das coisas) mas na certeza de que ganham definitivamente a “guerra” (dos valores de consciência com futuro). Podemos, entre tantos outros, lembrar os emblemáticos Luther King e Mahatma Gandhi nas suas lutas pela dignidade humana em que não responderam com as mesmas moedas de que foram vítimas.
2. A crispação de algum do inseguro tempo presente está a fazer vir ao de cima a antiga “lei de talião”, quando na menoridade existencial e social, se respondia “olho por olho, dente por dente”. Uma verificada intolerância (e mesmo o seu ridicularizar) para com as legítimas e dignas diferenças, ou um autismo superficial de poderes que cega a compreensão da complexa realidade, estão a proliferar como cogumelos. Tudo quase que numa resposta “taco a taco” como se, definitivamente, uma certa bondade humana estivesse já fora da validade. No plano da constatação, há dias no parlamento, alguém de opinião diária em grande órgão de comunicação manifestava a profunda tristeza com as actuais formas de “fazer política” (espelhadas no debate entre Sócrates e Portas); dos dois lados da intriga, uma “guerra” demonstrativa de como vamos andando… Todos falam do interesse nacional, mas a preferência prática continua na quezília...
3. Talvez fosse interessante e importante o conhecer, estudar, reconhecer e compreender mais e melhor a vida daqueles que nos precederam da vida e que foram abrindo caminhos de dignidade humana e de coesão social. Esses foram criadores de “pontes” com os tijolos que outros antes haviam usado para erguer os “muros” da divisão. Se não cuidarmos deste património essencial da humanidade, apre(e)ndendo da grandeza e da bondade generosa desses profetas, sem darmos por isso, podemos ir desumanizando a vida e as relações… Em muito das nossas sociedades, a montante, já quase custa a compreender que terão de existir valores e princípios inalienáveis; mas, simultaneamente, diante de todas as inseguranças, a jusante, reclama-se a criminalização de quase tudo o que for o passar da fronteira. À crispação e à desagregação terá de se responder com a bondade, o mesmo é dizer, com “sabedoria”. Esta, que é sempre o futuro, não segue os números ou as fórmulas pois “persegue” a pessoa toda e tudo o que existe, mesmo sem ver.

Alexandre Cruz [03.03.2008]

Na Linha Da Utopia

Estudar as claques de futebol
1. O que são as grandes claques de futebol? Como vivem e de que vivem? Que rituais e palavras geram essa unidade quase inquebrantável? Que energias da claque transitam para a vida pública? Como procuram ou conseguem lidar os clubes como essa força poderosa, na emoção capaz do melhor e do pior? O que acrescentam ao futebol? Serão mesmo necessárias? E quando tudo corre mal, quem se responsabiliza? Têm tendência a crescer à medida que as desigualdades sociais aumentam? Haverá alguma relação entre a exclusão social e as grandes claques de futebol? Como vêm a equipa adversária e as claques do outro clube? Que linguagens, chavões, gritos predominam? Haverá ritos de iniciação e hábitos de continuação para a pertença? Como se comportam na vitória? E que dizem e como agem-actuam na derrota? Enquadram-se no tipo de relação “amor-ódio”? Será obrigatório beber cerveja?!...
2. As perguntas poderiam nunca mais acabar. Volta e meia o assunto das claques salta para a praça pública. Normalmente pelos motivos menos felizes. Passado uns dias e arrefecendo as circunstâncias, como em tudo, volta-se ao dia-a-dia e as claques vão fazendo o seu percurso ritual, habitual. Quando se aproximam os grandes jogos, nacionais ou internacionais, falam-se de centenas e centenas de polícias, quase que diríamos a escoltar para “dominar as feras”, não vão elas soltar-se e “partir tudo”. Estranho mundo esse das claques, onde muita gente se deve perguntar, afinal, como subsistem na sua vida (?). Por vezes as marcas da passagem ficam registadas mesmo nas estações de serviço das auto-estradas, e dá a sensação de que estamos diante de algo já consagrado, como se a sociedade fosse cabalmente ou impotente diante de suas acções ou então já fazem parte da vida social...(?)
3. Há dias, ainda muito tempo antes do clássico Sporting – Benfica os jornais registaram entre adeptos rivais violências e mesmo esfaqueamentos; este domingo, a Pública (02.03.2008) dedica uma boa parte das suas páginas ao líder da maior claque do FC Porto «Fernando Madrinha: estranha popularidade». Destacava mesmo: o líder «para alguns, é um susto. Para outros, é o maior, um ícone. Esta é a sua história, a história de alguém que soube potenciar o “mau” e aprendeu a revertê-lo a seu favor.» (Pública, id). Confessam alguns que ele é quase um pastor (liderando os mais de dois mil super dragões em Alvalade), que «investiu no desvio, mas em vez de cair na marginalidade ganhou um lugar na sociedade». Os próprios clubes, instituições do futebol e autoridades não sabem como proceder. Tudo preocupante demais para se ficar sereno diante da ténue fronteira das liberdades… E ainda se poderá perguntar o quanto de impacto têm as claques como “deseducação social”(?). Já não é fácil (e pelo rumo que vai por essa Europa fora), mas como actuar enquanto há algum tempo? Aliás, ainda iremos a tempo de alguma coisa? AC[02.3.8]

Na Linha Da Utopia


O apagão mundial de 29 Fev. 2008
1. Já de há algum tempo a esta parte tem circulado nos diversos canais de comunicação e na internet a mensagem do “apagão mundial”. Não sabemos quem é a origem específica desta ideia que, ao que parece, percorre o mundo, mas provirá de linhas de reflexão e actuação da ordem ecológica. O dia escolhido é o último de Fevereiro, a hora que nos cabe é das 19.55h às 20.00h. Nestes mesmos 5 minutos o mundo pensará na mesma mensagem, para o planeta “respirar”. Apesar, naturalmente, de muita indiferença do pragmatismo das sociedades que não vêm resultado prático destas coisas estando sempre à espera dos resultados imediatistas, o certo é que procura-se (e espera-se) uma resposta massiva, a fim de estudar e ver o que acontece em termos da «brutal» poupança energética.
2. Este apelo, usando a força da união mundial pela Internet, apresenta mesmo um comunicado em várias línguas. Não só na lusofonia ou no inglês do ocidente mas em línguas orientais, árabes e asiáticas. Trata-se, efectivamente, de uma corrente global, do que chamaríamos um despertar da sociedade planetária e suas opiniões públicas para as defesas e preservações fundamentais. Já não é novo este recurso comunicacional. Foi usado tanto para a solidariedade mundial em causas como o Tsunami da Ásia ou os apelos prementes à não execução de pessoas em determinados pontos do globo. Mas, verdade se diga, ao que parece, nunca como neste “apagão mundial” (como estudo e sensibilização de poupança energética) a mensagem chegou tão longe, no apelo ao desligar de todos os instrumentos possíveis a fim de nos encontrarmos “despidos” de todos os aparelhos alimentados de energia.
3. Também neste apelo a deixar “respirar” o mundo (em que poluímos, segundo estudiosos, mais em 30 anos que nos últimos 30 séculos), brota o convite a parar um pouco, a deixar respirar e sentir a vida, esta às vezes tão carregada das corridas ou das coisas instrumentais. A mensagem vai a ponto de dizer em todas as línguas: «Sim, estaremos 5 minutos às escuras, podemos acender uma vela e simplesmente ficar a olhar para ela, estaremos a respirar nós e o planeta». Procuraremos, também, “parar” nesse momento, mesmo à luz da vela... Fazer a pausa do exercício de cidadania planetária nesta mega e humanizante sensibilização. No dia seguinte estarão aí os números da participação e mesmo da poupança energética desses 5 minutos. Também desta forma vamos sentindo que pertencemos ao mundo que aguarda a preservação de todos. Claro, não se esperem resultados que esta experiência não pretende nem pode dar. Mas ela também oferece um sinal daquilo que é a identidade global na defesa de ca(u)sas de todos! Alexandre Cruz [28.02.08]

Na Linha Da Utopia


Os professores, a rua, a educação
1. Já se sabe que esta conjugação (os professores, a rua, a educação) não dá grandes frutos. Os essenciais destinatários, os alunos, cada vez mais cedo descobrem as fragilidades do sistema e usam-no mesmo para atiçarem os educadores que, na sua função absolutamente decisiva na formação deste país, deviam ser preservados, protegidos e apoiados na dignificação do “ser professor”. Claro que os professores não gostam de sair à rua, preferem a sala de aulas; mas quando não há mais recurso a “rua” é o lugar de tornar público aquilo que, no fundo, diz respeito a todos. Seja dito, quanto mais em Portugal os professores tiverem de sair à rua em manifestação, mais difícil se torna a sala de aula. Para além dos possíveis sectores de ideias, mesmo de linhas políticas (em que ninguém se coloca de fora da necessária “avaliação” como estímulo à qualidade), a verdade é que a “rua” acaba, em área tão sensível e estruturante como a educação, por representar o beco sem saída das mesas de reflexão, onde a distância das tutelas à realidade torna impossível a construção razoável do consenso.
2. No passado dia 26 de Fevereiro, à noite, ocorreu mais uma manifestação. Mais de um milhar de professores acorreu percorrendo locais simbólicos em Coimbra. Diversos slogans, ainda que “puxados” como apelo emocionante no meio de tochas, velas e autocolantes, dão o sentir do estado da arte: à frente ia o cartaz «Basta! Assim não se pode ser professor», nas camisolas o lema: «Professores de luto e em luta pela Educação». Este cordão humano junta-se a muitos cordões de insatisfação. Está em causa (talvez) a causa mais importante de todas: a educação. Não se pode ser surdo ao “desabafo” de tantos professores que, não tendo qualquer medo da avaliação (mas contra este modelo tutelar), sentem-se indignificados e quase desacreditados diante das turmas de alunos cada vez mais exigentes, tanto em temos de conhecimentos como de comportamentos. Muitos estudiosos, ao longo de muitos anos, têm dito e redito que não é possível “solucionar” as questões da educação sem os professores, os alunos, os pais, a comunidade.3. Os alunos estão aí, a ver os professores e a tutela na rua do debate público. As famílias, a par da preocupação com a educação dos filhos vivem a super ocupação do pão (que sobe novamente) de cada dia. No ano 22 da Lei de Bases do Sistema Educativo Português, torna-se difícil vislumbrar ainda os elos de ligação de tudo o que envolve o maior tesouro a descobrir: sempre a Educação. É certo, com todas as entidades; mas quanto mais conhecendo e envolvendo as bases mais e melhor lá iremos. O que nunca pode significar permanecer estruturalmente onde se está num mundo em constante mudança. Nesta fronteira de que falamos, até para maior segurança, estabilidade e futuro de todos, o país precisa da redignificação da (autoridade da) função docente. Isto interessa a toda a sociedade civil.
AC [27.2.8]

Na Linha Da Utopia


São cereais, senhor!
1. Nas últimas semanas fomos alertados para a notícia da subida dos preços do trigo nos mercados internacionais. Destes dias, consequentemente, para a constatação alarmante de que será difícil garantir os programas de cooperação alimentar da ONU para com os povos em vias de desenvolvimento. Segundo Abdolreza Abbassian, de nacionalidade iraniana e que antes de chegar há 18 anos à FAO (Organização das Nações Unidas para a Agricultura e Alimentação) trabalhou na OCDE e no FMI, as razões desta quebra e do pânico dos mercados são múltiplas e tocam tanto as explicações de crescente concentração económica como os factores psicológicos globais.
2. No dizer desta especialista que esteve recentemente em Lisboa (no congresso do milho), há uma rede de «imprevisibilidade dos inúmeros factores que contribuem para a formação dos preços», o que torna todas as projecções arriscadas, demonstrativo de que «nunca o mercado foi tão volátil e isso vai continuar». Verifica-se a queda das reservas existentes, apesar do aumento de produção, observando-se neste ano 2008 o nível mais baixo de trigo em stock dos últimos 30 anos. Preocupante, no que representa este cereal como primeira fonte alimentícia mundial; simultaneamente desafio à reinvenção dos mecanismos alimentares que garanta o “justo pão”, processo que está em curso.
3. Se é certo que ao leque de razões poderemos acrescentar as questões da hiper-procura das novas potências chinesa e indiana, a par da emergência dos biocombustíveis, todavia, estas razões para a especialista iraniana aparecem como “mitos” que se vão criando, sendo também uma das razões a ter em conta a problemática das questões ambientais. Diante dos cenários de instabilidade global, que agora também chegou aos mercados de cereais, sobre a agricultura portuguesa, enaltece Abdolreza Abbassian as vantagens de ter uma agricultura diversificada, sendo a especialização um risco nestes contextos de incerteza. É verdade a segunda afirmação… Mas não deixa de ser interessante, com várias pistas de reflexão, que quem vem de fora diga que temos agricultura (?) diversificada…
4. Talvez tenhamos, sim, é inúmeras potencialidades nas nossas terras deste lindo país de sol. Mas, na realidade, uma boa parte delas estão à espera do nosso regresso, quando passarmos da tecnocracia, sem medos, para as terras dos chamados, de forma cara, “produtos biológicos”. Até lá, precisamos da redefinição estratégica para um global “milagre dos cereais”!
Alexandre Cruz [26.02.08]

Na Linha Da Utopia


Ao pós-crítica
1. A ideia central, e muito sublinhada, era «um mau-estar difuso», que «alastra e mina a confiança essencial à coesão nacional», podendo-se chegar a «uma crise social de contornos difíceis de prever». Esta foi a linha de pensamento do alerta lançado na semana passada pela Associação para o Desenvolvimento Económico e Social (SEDES). No documento são focados sectores frágeis como a degradação da confiança política, os sinais de crise nos valores, na comunicação social e na justiça, a criminalidade e a insegurança. Este documento deu azo aos comentários mais variados. Na generalidade, carregaram muito mais no pessimismo que continuamente nos derrota que esboçam uma leitura em ordem ao compromisso social de todos na busca das soluções comuns.
2. Naturalmente, todos, pessoas e / ou entidades têm o direito / dever de expressar publicamente como cidadania o seu contentamento ou descontentamento diante da realidade social. O país tem recebido alertas de diversas ordens de pensamento e de diferentes formas de ver e viver a vida em sociedade e as suas crises (neste aspecto lembre-se há anos o fundamentado documento: Nota Pastoral da Conferência Episcopal Portuguesa - “Crise de sociedade, crise de civilização”, 2001). São muitos os pareceres, mas normalmente os que mais sofrem a “crise” vivem-na no silêncio e na luta diária, vendo à noite nas notícias outros que não a vivem, sempre estética e comodamente instalados, a falar dela continuamente. Talvez nestes discursos todos exista um contraditório e um alarmismo mediático que acaba por tocar o “deixa andar”, como se não tivesse sempre dependido e dependesse de todos as soluções (do rigor aos valores humanos e sociais) para os problemas a resolver. Afinal, não são os cidadãos que votam, elegem, levantam, mantêm ou derrubam…?
3. Volta e meia vêm estes alertas. Mas seja dito que eles têm crescido, na proporção do crescimento das desigualdades da sociedade portuguesa. Todavia, não chega só constatar o que vai mal, o carregar nos medos de existir… Na realidade, uma mentalidade pró-activa e dinâmica talvez ofereça a capacidade de criar mais soluções. Depois da crítica de quem muitas vezes vive bem acima da média será preciso passar ao “pós-crítica” e mesmo a uma ordem de justiça redistributiva que se diz não existir. É claro que neste “pós-crítica” estarão os dinamismos situados a cada circunstância. Talvez o eixo esteja na concepção que temos de “política”. No geral, pouco ligamos a não ser na hora de não concordar ou desconfiar. Ainda não descobrimos que todo o cidadão todos os dias é político. Ainda deixamos tudo andar, até… De certeza que com uma cultura activa e mais participativa de todos os cidadãos hoje estaríamos, pelo menos, um pouco mais acima…
Alexandre Cruz [25.02.08]

Na Linha Da Utopia


Património de Aveiro no Moliceiro

1. (Aceitámos o repto lançado...) Há breves dias ocorreu mais uma oportuníssima tertúlia promovida pela Associação dos Antigos Alunos da Universidade de Aveiro (www.aaaua.ua.pt), entidade atenta na dinâmica da mobilização nas mais variadas áreas de iniciativa, sempre aberta à comunidade em geral tendo como especial referência os antigos alunos da academia aveirense. O local destas iniciativas de periodicidade (sensivelmente) mensal é o Hotel Moliceiro. Um espaço ex-libris da cidade que, numa visão de “hotel como cultura”, acolhe esta habitual linha programática de reflexão e debate sobre assuntos que dizem respeito a todos os cidadãos, quer da cidade e região quer da “aldeia” do mundo actual. Desta vez o tema era «o património aveirense»; e que melhor local para o acolher que um (Hotel) Moliceiro!...
2. Sempre que esta reflexão vem à ribalta juntam-se muitas vozes de zelo cuidadoso a par dos sentimentos de ansiedade sobre o que vai ficando por cuidar. Passado, presente e futuro entrecruzam-se neste reconhecimento admirável aos que “deram a vida” (e em que lutas!) por um património aveirense mais preservado e amado. Mas também se reconhece a continuada carência de elos de ligação potenciadores de uma comunidade que viva, conheça, estude, aprecie e se identifique com o seu património cultural. Dos canais (sempre adiados) da Ria de Aveiro, aos canais das comunicações articuladas e programáticas entre todos os “agentes” ainda paira “ruído” no ar, não chegando um cómodo dizer-se que “estamos disponíveis” como se o futuro se fizesse de uma simples “boa vontade” sem o agarrar determinado dos processos de forma concreta, parceira e objectiva.
3. Até quando as causas do património terão de ser uma “luta”? Não corresponderá ele ao que de melhor temos para viver com qualidade e partilhar com quem nos visita? A história dos que edificaram no tempo entidades como a ADERAV (Associação para o Estudo e Defesa do Património Natural e Cultural da Região de Aveiro: www.aderav.com.sapo.pt) mostra-nos que a determinação do “agarrar” a causa salvou Aveiro de “cegueiras” contra o património. Os esforços contemporâneos também são muitos. Alguns, seja sublinhado, como a Rota da Luz, surgem mesmo como plataforma de visibilidade nunca vista para Aveiro. Mas, cá dentro, numa mesma “mesa”, a “rede” poderá despertar as 1001 potencialidades… O primeiro passo é sempre o querer, valorizando o essencial que une a região e suas gentes. Embarcar num mesmo “moliceiro visionário” pode multiplicar caminhos e rentabilizar estratégias. Ninguém que pense a cultura, que “tenha” património e que ame a região pode ficar de fora (do que é público, da sociedade civil ao religioso ou privado). E podem uns ovos-moles ajudar a criar pontes!...
4. Agora só pessoalmente: das coisas que lançam grande interpelação é o facto de em Portugal existirem muitas redes de turismo espanholas a organizar os nossos roteiros do património regional / nacional… Sem palavras, pena. Claro, a nossa menor visão ou o desentendimento são (lhes) um presente caído do céu! (E depois, em Portugal, falta-nos a auto-estima!...) Alexandre Cruz [24.02.08]

Na Linha Da Utopia


Lorosae!
1. Na terra de Timor Lorosae José Ramos-Horta desperta do pesadelo de 11 de Fevereiro. O pó vai acalmando, nem que seja pelo decretar vigilante do “estado de emergência” do governo timorense, agora solicitado como prolongamento para mais 30 dias. A mulher de Xanana Gusmão foi com os filhos agradecer à GNR. É confirmado, pela investigação minuciosa da Missão das Nações Unidas no território, se é que dúvidas existissem, que os dois ataques «estavam relacionados, foram feitos pelo mesmo grupo». Ramos-Horta, gravemente ferido e resgatado pela GNR, foi evacuado para o vizinho Royal Hospital de Darwin. Xanana conseguiu fugir. O rebelde Alfredo Reinado, líder dos ex-militares revoltosos, foi morto no dia dos acontecimentos. Mas, terá sido morta a raiz de todos os problemas desta jovem nação?
2. É difícil falar de Timor. Se o é para quem lá esteve anos e calcorreou as montanhas, muito mais o é para quem não pisou esse chão do sol nascente. Não é só o problema da distância física, dos milhares de quilómetros que nos separam, é bem mais o lugar que Timor ocupa no coração dos portugueses. Por muitas razões da história passada e pelas contínuas pontes de todos os dias com Timor, terra independente desde 2002. Talvez, como se diz, seja mesmo necessário colocar “o coração ao largo” para ver com olhos de ver o que acontece. Timor é (mesmo) dos timorenses. Será que todos os timorenses já se aperceberam disto no esforçado trabalho a realizar todos os dias? Todas as solidariedades não podem substituir todas as responsabilidades. Aliando-se a cooperação do “ensinar a pescar”, será mesmo necessário voltar a pergunta (na teoria, que seja) para o povo de Timor: “Que querem os timorenses de Timor?” (É fácil escrever esta questão, e sabemos do seu simplismo de quem está deste lado do mundo… Mas, por que lado envolver e comprometer?!)
3. Após a independência, como depois de todas as independências seja de que género for, os anos seguintes são decisivos. É o tempo da consolidação e da estruturação das instituições participativas e democráticas. Em Abril-Junho de 2006 ocorreu uma enorme vaga de violência, verificando-se o aprofundar de incompatibilidades de grupos que pensam de forma diferente sobre vários assuntos. Estes ataques de Fevereiro de 2008, diante de problemas sociais em que todas as instâncias e cidadãos têm de ser parte das soluções de forma democrática, acabam por demonstrar que o objectivo era derrubar os poderes presidenciais e governativos… Nestas conjunturas, e diante do incerto futuro, “ter pena” de Timor também não ajuda nada (pelo contrário é não aceitar corajosamente que Timor é dos timorenses). Talvez, simbolicamente, nesta “entrega de Timor aos cidadãos de Timor”, na busca de soluções (sem ociosidade e) pelo trabalho concreto de todos os dias possa residir uma chave do futuro. Mas, o que é SER cidadão e TER o poder em Timor?
4. Custa a compreender, pese embora todas as naturais formas diferentes de pensar sobre isto ou aquilo, que já quase tenha sido perdida a memória colectiva como coesão das lutas pela independência. Ou esta terá sido mais pela emoção e nem tanto com a razão e o compromisso de todos?! Muitos timorenses estão em Portugal nas suas formações pessoais e profissionais. Diante da apreensão do necessário regresso irá também na bagagem a confiança para construir um país Timor onde o sol da paz e do desenvolvimento brilhem cada dia. (Quanto a nós, sabemos que tudo o que dissemos não é nada comparado com a complexa realidade a trans-formar…)
Alexandre Cruz [21.02.08]