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22 de novembro de 2007

Cartas para Sakhalin - Diário de Aveiro (22)

Que Chávez para o futuro?

O mais recente incidente diplomático na Cimeira Ibero-americana colocou a nu um dos maiores problemas da sociedade actual e da política internacional. Nunca os equilíbrios internacionais estiveram tão dependentes dos recursos energéticos e, no fundo, da capacidade de gerar dinheiro, bem-estar.
Claro que hoje temos sinais de esperança relativamente a fontes alternativas de energia, como as renováveis, mas são ainda incipientes, e quem não tem petróleo está condenado. Os empresários, a indústria, e também o governo, terão de fazer sérias apostas em matéria de energias alternativas, porque por aí passará boa parte do futuro. Mas enquanto o problema energético não é resolvido num passe de mágica à Luís de Matos ou David Copperfield, o ouro negro continuará a determinar (manchar) substancialmente as relações entre produtores e consumidores, moldando também as relações externas dos países, e toda a forma de fazer política.
Todos os líderes políticos procuram criar bem-estar para as suas populações, para os seus eleitores. Procuram ganhar poder económico, poder político. Ora isso faz-se cada vez mais na cena internacional. Dessa forma, não podem ficar alheios ao movimento de globalização económica e muito menos podem deixar passar a caravana do petróleo e demais recursos sem ir atrás.
A protecção dos emigrantes, a internacionalização das empresas, as trocas comerciais e a busca de recursos energéticos noutras paragens – de preferência controlando a intermediação –, são aspectos que timbram a política externa (e interna) das nações – é a chamada diplomacia económica. Toda a gente pensa primeiro em dinheiro e só no final da refeição, depois de rapado o fundo ao prato, este reflecte, qual espelho da bruxa má, a questão dos valores, dos direitos humanos, o risco para a segurança a longo prazo da perigosa conivência com déspotas amigos. Mas a bruxa está de barriga cheia, a barriga cheia dá sono e o sono vai esquecendo.
Nesta política um pouco rastejante há, porém, uma estranha dualidade. Alguns tiranos, supostamente de esquerda, lá vão tendo a simpatia de gente importante, já com idade para ter juízo. Não é o Prof. Boaventura Sousa Santos o arauto em Portugal do fantástico Hugo Chávez como exemplo da construção do socialismo do século XXI? Não se compreende. Tiranos, independentemente de terem sido eleitos, são tiranos. Homens que pensam mudar constituições para se perpetuarem nos cargos – hoje o Público noticia que a Câmara Alta do Parlamento Russo desafia Putin a violar a Constituição para se manter mais um mandato –, ou ditarem um mundo à sua medida, que não admite opinião diferente, não passam de tiranos, sejam lá de esquerda, direita, ou outra coisa qualquer.
Portugal, como a grande maioria dos países, define as suas relações externas em face dos seus interesses económicos e, depois, muito subtilmente, diz que vai pressionando pela defesa dos direitos humanos. Assina convenções internacionais e tal, mas depois a malta tem que ser realista e tal, e os tipos até são dos nossos e tal.
Em prol de uma Europa que se quer a Economia mais competitiva do mundo com base no conhecimento, lá nos vamos rebaixando, ora carregando os barris de uns, ora sonhando com o mercado de milhões de outros. Tivemos uma excepção chamada Timor-Leste, para a qual até procurámos o apoio de terceiros. Mas agora já não queremos saber do Tibete, de Cabinda, de Cuba, da Venezuela, do Darfur, e de muitos outros lugares. Será este um problema da diplomacia económica? Será um problema da globalização e da economia? Um pouco, como o mostra aliás a notícia sobre a pressão que o primeir-ministro José Sócrates diz que vai fazer a Mugabe se este vier à Cimeira Europa-África, numa estranha dualidade de critérios, se tivermos em conta que hoje janta simpaticamente com Chávez. Mas será mais do que isso, também um problema de perigosas conivências ideológicas, sob o disfarce dos interesses económicos que todos engolem mais facilmente, porque se fala à barriga. Mas cuidado, porque o peixe também morre pela boca.
A globalização, o mercado aberto, mas bem aberto mesmo, sem proteccionismos, sob regras claras que juntem na mesma panela a questão da livre circulação de mercadorias, capitais e pessoas (ah pois), garantindo-se a defesa da dignidade humana e salários condignos, são o melhor instrumento para a paz e o desenvolvimento. Porém, a ver pela China, ficam ainda no ar as dúvidas sobre se os regimes mudarão em função desse desenvolvimento económico e dessa abertura – será que sim, como advogava Alan Greespan?
O incidente diplomático, que já referi, entre o Rei de Espanha e o Presidente da Venezuela, mostra parte de uma equação difícil de resolver na actual cena internacional: a arrogância dos ditadores que têm ou recursos ou mercado ou protecção ideológica e a arrogância e autismo dos países ocidentais, democráticos, que não perceberam, e de certo modo não percebem, que para haver paz é imprescindível criar condições para uma criação/divisão da riqueza no respeito por regras de jogo limpas (não artificialmente), apostando na Educação (instrumento de Cooperação), nos laços culturais e emocionais.
Contudo, é preciso sublinhá-lo, o Rei teve razão em enfrentar o malcriado e arruaceiro venezuelano, que chamava, impunemente, fascista ao ex-Presidente Aznar, eleito democraticamente, num país democrático – o que, diga-se em abono da verdade, não é o que se passa na Venezuela. A forma como o fez é que talvez se tenha tornado numa oportunidade perdida para o desmascarar com a forte chapada de luva branca, e talvez não.
Há chaves que a razão desconhece e razões que Chávez nem sonha.

19 de novembro de 2007

Road map para Sakhalin

O nosso road map

16 de novembro de 2007

Cartas para Sakhalin - Diário de Aveiro (21)

A última crónica "Cartas para Sakhalin" publicada, na edição escrita, tem uma gralha vergonhosa: "Os auxiliares tcnológicos não vêem..." A primeira vez que os meus olhos vêem o texto com olhos de ver, até me vêm lágrimas aos olhos.

14 de novembro de 2007

No papel


Cartas para Sakhalin - Diário de Aveiro (21)

Chip na bola?

Depois de ter dito na semana passada que não era grande fã do programa Prós e Contras, tenho hoje de dar a mão à palmatória e logo a favor de uma edição sobre futebol.
Também eu tenho sido crítico em relação ao país da bola, onde tudo gira em torno do desporto rei e, especialmente, para mal de quem sua a camisola honestamente, em volta do apito, que ora é dourado, ora é vermelho, ora é verde, ora é “tutti frutti”.
Mas, independentemente da fruta, o futebol é paixão que faz mover o planeta azul, e eu não sou excepção. Gosto muito de futebol. É um desporto de grande beleza técnica, uma arte que, como todas as artes, é difícil explicar a quem não tem os instrumentos para a perceber.
O futebol é também uma das nossas melhores indústrias. É das poucas em que os portugueses são dos melhores à escala global. Temos, assim em traços largos, o quarto lugar do campeonato do mundo e o segundo do campeonato da Europa. A selecção A está no oitavo lugar do ranking da Federação Internacional de Futebol (FIFA), atrás de grandes países como a Argentina (1º), o Brasil (2º), a Itália, a França, Alemanha, Espanha e Países Baixos. Oxalá estivéssemos assim nos outros indicadores de desenvolvimento. Os nossos clubes portam-se razoavelmente bem nas competições internacionais. A nossa indústria de jogadores é notável, com capacidade para produzir algumas das melhores vedetas mundiais: Figo, Rui Costa, Paulo Sousa, Pauleta, Cristiano Ronaldo, Nani, etc. E sem esquecer que temos ainda o “the special one” Mourinho e o não menos especial Carlos Queiroz do ManU.
Os jogadores, verdadeiros artistas desse magnífico espectáculo conseguem contrariar até todas as rasteiras menos desportivas, preparadas dentro e fora do campo. Sendo um negócio de milhões – nada contra -, o futebol está sob a mira de gente sem escrúpulos para ganhar a todo o custo (dinheiro, muito dinheiro, poder).
Este “Prós e Contras”, que versa em larga medida a introdução de auxílios tecnológicos à decisão dos árbitros, mostra alguns velhos do Restelo. O maior e mais barbudo é a FIFA e os seus patrões, apoiados numa rede de interesses pouco claros, sob a desculpa do conservadorismo das regras – uma incrível falácia. As regras do futebol já mudaram muito nos último anos, e ainda bem. A estes velhos senadores interessa alguma confusão, alguma subjectividade, que garanta a influência que lhes permita determinar a justiça final do jogo. É um hábito muito entranhado. Também na sociedade é assim, havendo uns tais que se consideram deuses próximos do arquitecto, decidindo, conforme o vento e a chuva, o que é justo, quem deve ganhar ou perder.
É um mundo perigoso, lamacento.
O suposto árbitro, inocente ou corrupto, mas muitas vezes um pobre coitado em ambas as circunstâncias, lá anda nas bocas do mundo, servindo de bode expiatório, de joguete, nas mãos de criminosos na confusão da feira popular. Afinal, porque não podem ser usados todos os meios tecnológicos que auxiliem o juiz a tomar as decisões correctas? Afinal, porque não devem essas decisões ser o mais isentas e rigorosas possível?
Espantou-me ver pelo não o comentador desportivo Paulo Catarro. Diz ele que o erro faz parte da emoção do jogo, e que todos os intervenientes se enganam. O Paulo Catarro não sabe que o árbitro não é protagonista do jogo, mas o seu juiz! E também não consegue perceber que basta a beleza que as fintas dos Cristianos emprestam à arte e à emoção do espectáculo, sem necessidade de suspeitas sobre se houve erro ou aldrabice. O futebol, como tudo na vida, não deve temer a verdade e a justiça, desde que não se entre em derivas persecutórias, como aliás fazem políticos e jornalistas no nosso dia-a-dia, sem qualquer problema. O próprio Paulo Catarro gosta de repetir e repetir jogada para atacar os árbitros pelos erros cometidos, o que não deixa de ser fantástico!
Será que, por doença profissional, o comentador desportivo quer ser ele próprio o juiz da bola?
É totalmente infundado o medo de que os meios tecnológicos de apoio à verdade desportiva retirem à competição a sua espectacularidade. Quem pode acreditar nisso? Noutros desportos estão a ser implementados com excelentes resultados, como podemos ontem comprovar pelas opiniões objectivas do seleccionador nacional de rugby e pelo nosso proeminente árbitro internacional de ténis. O desporto rei é também um negócio de milhões que exige rigor e verdade, pois uma “decisão errada”, que poderia ser melhor julgada com apoio tecnológico, pode significar prejuízos avultados – prejudicando, em regra, os mais fracos, como se sabe, ou promovendo alguns por razões políticas. Assim ao jeito dos piores festivais da canção-do-bandido ou miss-qualquer-coisa-geo-estratégica.
Os auxiliares tecnológicos não vêm resolver tudo, é certo, e alguns podem até quebrar a dinâmica do jogo – pondere-se –, mas o que não se pode é tapar o sol com a peneira, nem confundir a floresta com a árvore. Certo é que o triste espectáculo da falta de verdade desportiva, que gente tão ilustre continua a proteger, tem afastado gente dos estádios e promovido a violência. Afinal, que espectáculo pode existir na falsidade?
É neste lamaçal, mais perto do coliseu romano do que dos palcos da modernidade, que assistimos com vergonha aos jogadores a atirarem-se ora à honra do árbitro ora às pernas dos colegas de modalidade sem medo de as partir. Da plateia ouvem-se impropérios que mancham o hino da pátria e dos egrégios avós.
Será que falta algum chip na bola dos senhores do futebol?
~
Este texto na edição escrita tem uma gralha vergonhosa: "Os auxiliares tcnológicos não vêem..." A primeira vez que os meus olhos vêem o texto com olhos de ver, até me vêm lágrimas aos olhos.

13 de novembro de 2007

Visitors from the blue planet

A worm welcome to visitors from:

Luanda, Angola
Manama, Al Manamah, Bahrain
Izmir, Izmir, Turkey
Warsaw, Mazowieckie, Poland
Rome, Lazio, Italy
London, England, United Kingdom
Ithaca, New York, United States
Toronto, Ontario, Canada
Goiânia, Goiás, Brazil
Campo Grande, Mato Grosso Do Sul, Brazil
São Paulo, São Paulo, Brazil
Porto Alegre, Rio Grande Do Sul, Brazil
Buenos Aires, Buenos Aires, Argentina

7 de novembro de 2007

Narciso

Leia todas as crónicas "Cartas para Sakhalin" publicadas até à data no Diário de Aveiro aqui.
Leia todas as crónicas "Na Linha da Utopia" aqui.

Cartas para Sakhalin - Diário de Aveiro (20)

Casar com o Estado?

Sei que está a dar na RTP o Prós e Contras, que é muitas vezes mais Prós do que Contras, com um debate muito pobre, para festejo de quem está, para regozijo do deixa estar, e desconforto daqueles que queriam muito mais. Enfim, é o formato e o convite. Lamento, mas não faço parte do grupo de apreciadores, embora reconheça que é dos poucos programas de debate de ideias que ainda existem na televisão, que se tornou quase só entretenimento.
Discute-se o Orçamento de Estado, desse Estado que se escreve com maiúsculas contra o cidadão em minúsculas. Como sei, à partida, quais vão ser os discursos, dispenso a cartilha. Precisamos de uma outra atitude, que defenda realmente as pessoas, em vez de defender o Estado e quem dele se vai apoderando e servindo.
Mudo para o canal dois, mas o serviço público de televisão mostra uma série que se passa numa wishful land (terra desejada) onde só existem homossexuais, quase todos mulheres, e praticamente só se fala de sexo (fuck, na língua nativa, é a palavra mais ouvida). Concedo, acabei agora de verificar alguns aspectos interessantes sobre a discriminação negativa de que são alvo, e que deve ser encarada com seriedade. Mas é verdade que a maior parte do tempo a coisa é má, e também não me entusiasma, de modo que volto a este texto, com a vossa compreensão.
Os exemplos da forma agressiva e perversa como o Estado trata o comum cidadão, muito para além da televisão, são muitos e ostensivos. A lista é infindável e não caberia neste jornal. Com a promessa de nos proteger e salvar o corpo, os arautos do modelo (extremado) consomem-nos a alma, e depois deixam-nos quase só a pão e água. É uma cultura, uma estranha religião, que faz o cidadão ajoelhar-se perante este poderoso amo. Aqui chegamos, indirectamente*, ao Orçamento. Pagamos muitos impostos, mesmo localmente, sem nunca percebermos muito bem por que razão, para quê.
Mas o Orçamento, através dos impostos, traz água no bico. Revela uma atitude do estado face aos cidadãos. O Estado exige aquilo que não cumpre. Por exemplo, se nos atrasamos a pagar impostos, nesta máquina que o Dr. Paulo Macedo tão bem oleou, somos fortemente penalizados, mas se o estado se atrasa ou se esquece de pagar, isso não é problema – nós somos o elo mais fraco. Conheço uma pessoa que pagou, por engano com códigos Multibanco, duas vezes uma “despesa” fiscal. As Finanças reconheceram imediatamente o engano e o direito da pessoa ser ressarcida, mas isso já foi há quase dois anos e, até à data, nada de reembolso!
Qual o valor dos avultados descontos que fazemos? Uma outra pessoa que conheço, e que durante uma vida de trabalho descontou os devidos impostos, teve que pagar uma cirurgia do seu bolso numa clínica privada, pois a saúde gratuita condenara-o a uma lenta e perigosa espera. O sistema de saúde é complexo e nunca sabemos muito bem onde nos dirigirmos quando estamos mal. Horas e horas de espera nas urgências, empurrados para centros de saúde, muitos sem médico de família. Somos assaltados, espatifam-nos o carro e fogem, danificam-nos os bens, atropelam-nos os direitos, e as autoridades dizem-nos que nada podem fazer. Não nos sentimos seguros, protegidos, nesta e noutras matérias. O sentimento, na maioria das vezes, é mesmo de total impotência.
Nisto do orçamento, a vida está para os espertos, para aqueles que sabem adaptar-se bem ao sistema, enganá-lo, viver dele. Este estado de coisas consegue puxar do ser humano o “melhor” das suas habilidades. O problema é para os que estão entretidos a trabalhar e têm esta mania masoquista de interpretar erradamente a lei e cumpri-la.
As artimanhas, como todos sabemos, são muitas e bem imaginativas. Soube recentemente duma prática de “sobrevivência” notável, que revela esta capacidade sublime de adaptar o regime de princípios e valores ao sistema, ao qual nem escapam as “sólidas” convicções religiosas. Contaram-me que há casais que se divorciam no civil para evitar que o Estado venha sobre os seus bens. Como? Se um deles for empresário, basta ir colocando a riqueza no nome do outro, garantindo assim um pé-de-meia acima da máquina fiscal, caso a coisa dê para o torto. O pior é que continuam a viver sob o mesmo tecto e, pasme-se, a ir à igreja como casal, comemorando até, com o beneplácito de responsáveis e tontos, bodas de prata e ouro.
Por outro lado, conheci uma senhora que vive de uma miserável reforma de viuvez e que encontrou novamente a felicidade ao lado de um homem também ele reformado. Se casar com ele deixará de a receber e terão ambos que viver com 300 ou 400 euros da reforma do novo marido. Como tal, e para não viverem contra os seus valores (amigados clandestinamente), vão casar a Espanha, escapando à cegueira do Estado, a mesma que atribui reformas douradas e de somar a políticos inúteis ou os instala em empresas públicas, onde fazem corpo presente por milhares de euros mês.
Parece que é mais vantajoso estar divorciado do que casado, a não ser que seja com ele, com o Estado.
~
*Errata ao artigo publicado:
Esta segunda vírgula não aparece no artigo publicado, o que constitui uma gralha que aqui se corrige, pedindo desculpa aos leitores.
Adenda ao artigo publicado:
Uma leitora comunicou-me imediatamente que também ela fugia, vivendo maritalmente com uma pessoa, há uns bons anos (mais de 10), mas mantendo essa união na clandestinidade para não perder o arrendamento jovem. Mais um contributo para esclarecer o quanto é pernicioso o sistema fiscal e de incentivos.

30 de outubro de 2007

Cartas para Sakhalin - Diário de Aveiro (19)

Triste sentença
Nos últimos dias veio outra vez à baila o tema da Casa Pia de Lisboa. Uma entrevista de Catalina Pestana, ex-provedora, reacendeu, em termos mediáticos, o problema grave dos eventuais abusos sexuais sobre algumas das crianças à guarda daquela instituição.
Independentemente das críticas que podemos fazer a Catalina Pestana, nomeadamente perguntar-lhe o que fez para acabar com as práticas que diz ininterruptas, ela trouxe para a ribalta uma preocupação que nos afecta a todos.
Não só nos deixa consternados o facto de a pedofilia subsistir sobre aquelas infelizes crianças, mas também não sabermos em que pé anda a justiça relativa ao caso investigado. Afinal, o que se passou? O que se passa?
Se perguntarem a qualquer português o que acha que vai acontecer com o caso Casa Pia, qual acham que será a resposta? Sabemos que quase todas as pessoas consideram que não se fará justiça. O que significa isto?
A expressão mais ouvida em Portugal quanto aos casos mediáticos de suspeita de crimes graves que envolvam gente importante, com dinheiro ou poder – creio que a excepção que confirma a regra terá sido Vale e Azevedo, antigo presidente do Benfica – é aquela que diz que «tudo ficará em águas de bacalhau». Será maledicência pura ou espelho da realidade?
Os casos em que, através de expedientes jurídico-administrativos vários, famosos gabinetes de advogados tornam “inocentes” uns e outros, por cansaço, prescrição ou magia, são muitos e escandalosamente evidentes. É que não se trata de provar a sua inocência, mas antes enviar para as calendas gregas ou parte incerta qualquer sucedâneo da investigação, também ela, em muitos casos, ferida de morte.
Por outro lado, também é preciso denunciar a vergonha que é o julgamento em praça pública (nos média) a que tantos são sujeitos, sem a possibilidade de ver limpo o seu nome, enlameado pelo voraz apetite da pobreza espiritual, alimentado por uma comunicação social que não se percebe a que amo serve. Uma mistela de coisas que nos envergonham enquanto Estado supostamente democrático.
Preocupa-me sobretudo, devo dizê-lo, aqueles que não têm acesso a chorudas contas bancárias e aos respectivos gabinetes de advogados, ou que, sendo pequeninos, não chegam com a boca ao faústo repasto da corrupção.
Basta ver a promiscuidade entre políticos, clubes de futebol – não queria bater no ceguinho, mas não tenho como fugir –, juízes, autarquias, empresas de construção, entre outros. Até na minha pequena terra de origem as coisas são assim, exuberantes, para escárnio dos pobres, cujo único ganho é rir, rir de tanta loucura.
Não tenho a veleidade de querer propor uma cura milagrosa para tanta podridão. Não gosto de demagogia. O problema é complexo e precisa de todos.
Sei apenas que a justiça tem de se basear numa lei forte, simples, sólida sobre os criminosos e protectora dos inocentes, numa lei que esteja acima de todos e que sirva a todos. Mas não basta, pois é preciso um sistema e pessoas que a façam aplicar, sem contemplações. Esse sistema não existe em Portugal – não tapemos o sol com a peneira.
A justiça começa também em cada um de nós, nos nossos actos, naturalmente – que isto não vai apenas de pregar –, mas igualmente na capacidade de a reclamarmos, nas coisas de todos os dias, sem medo. Começa numa sociedade civil forte, capaz de se organizar e unir para contrabalançar poderes.
A opinião geral é de que a justiça está enclausurada nos tribunais, quais palacetes bolorentos no alto do Olimpo de onde soa o roar dos trovões para a populaça. Está certamente enclausurada na letra da lei, essa lei portuguesa “tão avançada”, eufemismo poético, habilmente articulado, que mais parece tecido para apanhar pequenas moscas e deixar escapar grandes moscardos.
O sentimento de impunidade e de incapacidade de fazer valer os nossos direitos mínimos é avassalador e triste. É como quando nos vendem um produto com defeito e pedimos justiça. O nosso interlocutor encolhe os ombros, diz-nos que não pode fazer nada e que teremos de falar com o gerente, esse mítico D. Sebastião. O problema é que, na maior parte das vezes, o gerente tarda em aparecer, ou há ainda outro gerente acima do gerente, e desistimos, cansados, descrentes.
O povo diz que não adianta, que não há nada a fazer. Quem terá ditado esta condenação?

18 de outubro de 2007

Cartas para Sakhalin - Diário de Aveiro (19)

Triste sentença

Nos últimos dias veio outra vez à baila o tema da Casa Pia de Lisboa. Uma entrevista de Catalina Pestana, ex-provedora, reacendeu, em termos mediáticos, o problema grave dos eventuais abusos sexuais sobre algumas das crianças à guarda daquela instituição.
Independentemente das críticas que podemos fazer a Catalina Pestana, nomeadamente perguntar-lhe o que fez para acabar com as práticas que diz ininterruptas, ela trouxe para a ribalta uma preocupação que nos afecta a todos.
Não só nos deixa consternados o facto de a pedofilia subsistir sobre aquelas infelizes crianças, mas também não sabermos em que pé anda a justiça relativa ao caso investigado. Afinal, o que se passou? O que se passa?
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(parte do texto a publicar esta semana no Diário de Aveiro)
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E a coisa continua a dar que falar:

10 de outubro de 2007

Cartas para Sakhalin - Diário de Aveiro (18)

Assumir as rédeas da Escola

No passado dia 5 de Outubro, nas Comemorações da Instauração da República, o Senhor Presidente Cavaco Silva centrou o seu discurso num desígnio inspirador: a Educação.
Todos sabemos que é na Educação que reside o sucesso de um país, de um povo. Nunca é demais sublinhar que as pessoas são o nosso melhor e mais durável recurso. Se é assim, é na Educação que devemos colocar grande parte do nosso esforço, do nosso investimento. Mas esse empenho não tem que ver apenas com dinheiro. Provavelmente, tem até muito mais a ver com outras coisas.
Portugal fez um investimento financeiro grande no sistema educativo nos últimos anos, mas os resultados não são animadores – basta olhar para a elevadíssima taxa de abandono escolar e de insucesso, em todos os níveis de ensino.
Demos um salto gigantesco na generalização do acesso à Educação, é certo, mas isso não basta se a maioria desiste e tem maus resultados. Há inúmeros e difíceis problemas por resolver. A democratização do sistema de ensino, que antes do 25 de Abril não era para quem queria, mas para quem podia, transformou-se numa massificação confusa, redutora da diversidade, da motivação, da ambição.
A Escola vive hoje problemas complexos – sem respostas fáceis – que urge combater com o envolvimento persistente de todos.
A mensagem do Presidente, apelando a uma Escola “nova”, entregue às comunidades locais, é, portanto, motivo de forte inspiração e a abertura de uma oportunidade valiosa.
O repto lançado a toda a comunidade, com especial acento tónico na responsabilidade dos pais, coloca perante os nossos olhos um horizonte, uma ambição, uma responsabilidade, um dever inadiável. E faz uma crítica clara ao actual estado de coisas, apontando o dedo ao desleixo dos pais, ao desrespeito pelos professores, o que nem é muito habitual no discurso político. Podemos dizer, em jeito de desculpa, que muitos dos pais fazem o pouco que sabem e podem, coitados, que ninguém lhes ensinou mais, que não têm tempo para acompanhar os filhos. Mas só acredita nisto quem quer. Se continuarmos neste caminho de desculpabilização, pedindo ao Estado – esse ente mítico de bolsos largos e vista curta –, que tudo resolva, estaremos fritos enquanto o diabo esfrega um olho.
A Escola não é um armazém, onde os pais depositam os seus filhos de manhã e os vão buscar quase à noite, à hora de jantar-xixi-cama. Também não pode ser refúgio de professores acomodados, fechados num casulo de segurança, onde a idade é um posto, e os novos, por melhores que sejam, não têm lugar.
As nossas escolas não deverão ser, certamente, linhas de montagem, monótonas, trituradoras das convicções de cada um, do pensamento, da criatividade e do sentido crítico, mas antes uma comunidade viva, com respeito pela diversidade, que inclua os pais, familiares, autarquias, empresas, associações, polícias, bombeiros, e por aí adiante.
Um projecto de Escola que seja mais atractivo, mais inspirador, que convide as pessoas para dentro da Escola e leve a Escola à casa de cada um. Um projecto de Escola mais responsabilizante, mais exigente, mais rigoroso, sem promessas de falsa e perigosa facilidade. Uma Escola onde os professores se mantém actualizados, dinâmicos, motivados pela qualidade e o seu trabalho é avaliado pelos resultados dos seus alunos em exames externos. Contudo, isto só será possível numa Escola onde os professores têm instrumentos para trabalhar e se fazer respeitar, e onde podem consolidar um projecto de carreira baseado no esforço, na dedicação e na vocação.
Uma Escola mais livre, rica na pluralidade, aberta ao mundo, ambiciosa, assente no trabalho, formadora de gente livre e capaz.
O desafio lançado pelo Presidente da República é sem dúvida inspirador e obriga-nos a uma atitude bem diferente. A primeira mudança deverá partir do próprio Estado centralista, que tem de devolver as rédeas das escolas às pessoas e às comunidades. A segunda, de assumir o desafio localmente, depende das pessoas e das entidades locais, que devem abrir caminho, sem demoras.
Vamos ver o que Aveiro dirá sobre isto.
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(Hoje no jornal Diário de Aveiro)

3 de outubro de 2007

Exemplo da coisa

Aspecto da crónica "Cartas para Sakhalin" no Diário de Aveiro



2 de outubro de 2007

Cartas para Sakhalin - Diário de Aveiro (17)

Aqui a praxe é outra conversa
(leia até ao fim, pf)
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Numa rua que dá acesso à nossa universidade, dei-me conta de muita gente nova em passo firme e acelerado, mais raparigas do que rapazes, papéis nas mãos, como se estivessem a agarrar o primeiro dia de um importante percurso.
Estando em Setembro, rapidamente percebi do que se tratava: com o Outono vem a primavera estudantil e a cidade vive dias de grande alegria e renovado dinamismo. Chegaram a Aveiro jovens esperançosos num futuro promissor e, por isso, dispostos a grande esforço para se tornarem bons profissionais, acreditando que isso lhes trará, apesar dos difíceis desafios a suplantar, uma carreira, sucesso, dignidade. Para alguns, oriundos de famílias humildes, é mesmo o sonho derradeiro de uma vida melhor, com menos sacrifícios do que os seus pais tiveram de suportar para que eles pudessem estudar.
Com a entrada no ensino superior começa igualmente uma nova fase das suas vidas, longe da protecção familiar, que os levará a assumir uma maior independência e considerável autonomia. Isso trará profundas transformações da sua personalidade, mas boas, que ninguém se assuste. Aqui construirão, num ambiente intelectualmente desafiante, competitivo, mas de grande solidariedade, fortes pilares da sua maturidade e da sua condição de cidadãos. Motivar-se-ão não apenas pela sua própria fortuna, mas também por cumprir um papel em sociedade, porque, sendo jovens – todos sabemos que os jovens sonham mudar o mundo –, sabem bem que o mundo começa a mudar dentro de cada um. Eles sabem que as pessoas são o nosso melhor “recurso natural”, uma pedra preciosa que precisa de ser burilada, com arte. A educação, que extravasa aquilo que se aprende nas salas de aula, é uma ferramenta preciosa de conhecimento, saberes e valores, que transforma a pedra em diamante.
Vieram, então, para a cidade e a universidade certas.
Aqui são bem acolhidos por todos, professores, colegas, aveirenses. A universidade é moderna, tem excelentes condições estruturais, bons professores e a aprendizagem é feita em ambiente de investigação, nalguns casos do melhor que há. Os professores são muito exigentes, mas também compreensivos e bons conselheiros. Além do estudo, incentivam-nos a usar o tempo livre em actividades enriquecedoras, desportivas ou culturais. Em Aveiro há um clima de participação cívica fora do comum. Os alunos são estimulados a participar em conferências, debates e tertúlias, a que os próprios professores não faltam.
A cidade recebe-os engalanada como moliceiros em tempo de festa, reconhecendo a mais valia que constitui a sua vinda, quer pelo dinamismo económico que proporcionam – deixam aqui elevadas somas em dinheiro -, quer pelo enriquecimento cultural que as suas actividades extracurriculares trazem. As instituições locais empenham-se, aliando-se à universidade e à associação de estudantes, para que se sintam em casa e tenham boas condições de vida, de trabalho, e possam explorar o máximo das suas capacidades. Aqui, ao contrário de muitos outros sítios, até as suas festas periódicas, algo barulhentas, são aceites com um sorriso na cara, como quem perdoa essas desventuras estudantis àqueles que se deixaram adoptar pela cidade e nunca mais a esquecerão. Uma coisa abona em seu favor: a academia procura envolver a cidade e evitar, tanto quanto possível, distúrbios contra as pessoas e os seus bens.
Tudo isto é uma cultura, que se ganha logo à chegada. No meu passeio, à medida que me aproximava do Campus ia encontrando grupos de estudantes mais velhos que, trajados, organizavam actividades de boas vindas para os recém-chegados, mostrando que em Aveiro a praxe é diferente e passa também por uma integração num referencial de valores. Aqui todos procuram proporcionar esse ambiente universitário fantástico, rigoroso, exigente, responsabilizante, mas de grande camaradagem, humanista e universalista, que promove o melhor da inteligência. Pelo meio, claro, há muita diversão, animando os espíritos, mas não há vestígios daquelas palhaçadas infantis que humilham os “caloiros”, os fazem sentir-se perdidos, para depois os encaminhar nessa brilhante descoberta científica de que o chumbo, afinal, é metal nobre, coroa de cábulas.
Para evidência poética deste cenário, um estudante trajado com alma recitava, junto à Reitoria: «Em perigos e guerras esforçados/ Mais que prometia a força humana, / E entre gente remota edificaram/ Novo Reino, que tanto sublimaram».
Não, em Aveiro queremos conquistar mares nunca dantes navegados e não temos tempo a perder. Aqui a praxe é outra conversa.
É assim, não é?

26 de setembro de 2007

Cartas para Sakhalin - Diário de Aveiro (17)

Aqui a praxe é outra conversa

Numa rua que dá acesso à nossa universidade, dei-me conta de muita gente nova em passo firme e acelerado, mais raparigas do que rapazes, papéis nas mãos, como se estivessem a agarrar o primeiro dia de um importante percurso.
Estando em Setembro, rapidamente percebi do que se tratava: com o Outono vem a primavera estudantil e a cidade vive dias de grande alegria e renovado dinamismo. Chegaram a Aveiro jovens esperançosos num futuro promissor e, por isso, dispostos a grande esforço para se tornarem bons profissionais, acreditando que isso lhes trará, apesar dos difíceis desafios a suplantar, uma carreira, sucesso, dignidade. Para alguns, oriundos de famílias humildes, é mesmo o sonho derradeiro de uma vida melhor, com menos sacrifícios do que os seus pais tiveram de suportar para que eles pudessem estudar.
(continua depois de publicada no Diário de Aveiro)

21 de setembro de 2007

Cartas para Sakhalin - Diário de Aveiro (16)

Paixões proibidas?

Sempre que me perguntam, no estrangeiro, de onde sou, tenho uma grande dificuldade em dar uma resposta clara. Recordo-me de uma vez, na Indonésia – corria o ano de 2003 – que o meu interlocutor, um guia turístico balinês, olhou algo incrédulo a minha explicação balbuciante e, acredito que por momentos, terá mesmo suspeitado estar perante um perigoso apátrida. Dizia-lhe eu que tinha nascido em Angola, tendo depois de 1975 ido viver para Portugal, mas que estava a trabalhar em Timor-Leste e me sentia uma espécie de cidadão da língua portuguesa.
O meu novo amigo, que me conduzia ao hotel de Bali onde passaria uma noite, em trânsito para Díli, depois de breves instantes em silêncio, de mais algumas explicações, nomeadamente do que significava a expressão do poeta “a minha pátria é a língua portuguesa”, exclamou para meu espanto: «Então, também eu sou um pouco dessa pátria!»
Tinha razão, de certa forma, aquele amável indonésio da ilha de Bali. Afinal, admiravelmente, tínhamos tido aquela longa conversa na língua de Camões. Surpreendidos? Como havia muitos portugueses a passar por Bali na sua viagem para Timor e muitos timorenses também, ele havia decidido aprender português, por sua conta e risco, sozinho. E falava lindamente. Além disso, conhecia muito da nossa geografia, da nossa história e da nossa cultura, que admirava, e dizia-se, para minha tristeza, que sou sportinguista, adepto do Futebol Clube do Porto. Tinha descoberto, nos seus estudos, que a língua indonésia tinha dezenas e dezenas de palavras com origem neste pequeno país da Europa, como jenela (janela), sepatu (sapato) e gereja (igreja). A agradável conversa logo se estendeu ao recepcionista do hotel, agora em inglês, com uma abordagem dos laços históricos entre Portugal e a Indonésia, o que justificava, numa situação ímpar, uma sala no Museu Nacional dedicado a Portugal.
Vem esta inesquecível memória a propósito daquilo que é ser português ou, mais precisamente, habitante dessa pátria que é uma língua. Talvez choque muitas pessoas ao dizer que, para mim, é português quem fala a língua e a sente como sua.
Declaro-me, portanto, defensor dessa pátria, acima de quaisquer fronteiras, acima de quaisquer diferenças, acima de todos os conflitos. A língua portuguesa pode e deve ser um espaço de história comum, de pontes culturais, de fraternidade e de paz. Diria que deve ser esse veículo, activo, de promoção do humanismo português, desse Portugal ao jeito do Padre António Vieira ou do filósofo Agostinho da Silva. Um Portugal para além do país físico, para além dos portugueses, que tantos teimam em ver apenas como membro da União Europeia, esquecendo aquela vocação que deu mundos ao mundo.
Esta afirmação que faço tem, é claro, implicações muito para além do simples romantismo que muitos simpaticamente me atribuirão. E é aí que quero chegar. E esqueçam, por favor, qualquer emoção nacionalista, imperialista ou colonialista, que não me agrada nem um pouco. Não é para aí que quero ir. Venham comigo.
Acabou recentemente uma boa série televisiva – “Paixões Proibidas” – baseada na obra de Camilo Castelo Branco, que trouxe para a ribalta a nossa história comum com o Brasil, esse grande Portugal. O período retratado foi aquele em que, depois da fuga da Corte para o Rio de Janeiro, após as invasões napoleónicas, um Império tinha a sua capital fora do seu centro original. Aí se viu como, apesar da feliz independência do Brasil, depois do famoso grito do Ipiranga, saído das goelas do Príncipe D. Pedro – o português que foi o primeiro brasileiro – somos uma família, e é muito mais o que nos une do que aquilo que nos separa. Isto é o que, para nossa desgraça, tanto portugueses como brasileiros esquecem frequentemente, para logo encontrar diferendo nas diferenças (como a pobre discussão sobre a posse da língua), que acabam por nos afastar mais do que o Atlântico. As diferenças constituem a diversidade que dá alma e cor a essa terra imaginária (a língua), unida pelo mar oceano que os portugueses tiveram a coragem transformar em caminho de encontro, nesse feito gigante da gesta humana.
Dizem-se muitas barbaridades por ignorância, ou estupidez, que promovem o afastamento dos povos, como aquela do Caetano Veloso de que os portugueses só tinham ido ao Brasil sugar e matar índios. Perdoamos-lhe pela qualidade da sua música, em português.
Mas também nós temos pecados feios na forma como tratamos os nossos “irmãos”. Não vale a pena esboçar exemplos, que todos reconhecerão no seu dia-a-dia a forma como alguns se referem aos brasileiros, e mesmo aos dos outros países da CPLP. Andamos algures entre a vassalagem política e o racismo imbecil.
A nossa desconfiança em relação aos imigrantes lusófonos muda, porém, quando nos emocionamos com os feitos desses ilustres representantes do país como o nosso velho Pantera Negra (moçambicano), o campeão do mundo de triplo-salto Nélson Évora (cabo-verdiano), a campeã europeia de salto em comprimento Naide Gomes (são-tomense), o Nani do Manchester (cabo-verdiano), o Deco do Barcelona (brasileiro) ou mesmo o nigeriano Francis Obikwelu, recordista europeu dos 100 m, entre tantos outros. Pessoas que vieram para Portugal à procura de uma vida melhor, lutaram contra grandes dificuldades, trabalharam, integraram-se, venceram, e deram um enorme contributo ao país.
Não é apenas no desporto, naturalmente, que temos casos de imigrantes de sucesso. Descobri, por exemplo, ao consultar na Internet o blog “De Rerum Natura”, de conhecidos investigadores da nossa praça, que também grandes cientistas como o Padre Bartolomeu de Gusmão (criador da passarola), José Bonifácio de Andrada e Silva (mineralogista-metalurgista) e Alexandre Ferreira (notável explorador-naturalista) eram, afinal, brasileiros, nascidos respectivamente em Santos (São Paulo), os dois primeiros, e em São Salvador da Baía, o último.
Podia falar de muitos outros casos – por exemplo na literatura, onde pouco nos interessa onde nasceu o escritor ou o livro –, para mostrar que é mais inspiradora essa pátria do tamanho da língua e da inteligência do que aquela cheia de fronteiras, assentes na pequena mentalidade que nos fechou do mundo e tanto nos prejudicou.
Isso, sejamos sérios, também nos obriga a acolher melhor os imigrantes, todos eles, sejam estrelas de futebol ou pedreiros anónimos.
É preciso vencer a ignorância, os complexos do passado colonial e o medo do desconhecido. Aqui está um novo desafio que não será certamente uma paixão proibida.

18 de setembro de 2007

Cartas para Sakhalin - Diário de Aveiro (16)

Paixões proibidas?

Sempre que me perguntam, no estrangeiro, de onde sou, tenho uma grande dificuldade em dar uma resposta clara. Recordo-me de uma vez, na Indonésia – corria o ano de 2003 – que o meu interlocutor, um guia turístico balinês, olhou algo incrédulo a minha explicação balbuciante e, acredito que por momentos, terá mesmo suspeitado estar perante um perigoso apátrida. Dizia-lhe eu que tinha nascido em Angola, tendo depois de 1975 ido viver para Portugal, mas que estava a trabalhar em Timor-Leste e me sentia uma espécie de cidadão da língua portuguesa.
O meu novo amigo, que me conduzia ao hotel de Bali onde passaria uma noite, em trânsito para Díli, depois de breves instantes em silêncio, de mais algumas explicações, nomeadamente do que significava a expressão do poeta “a minha pátria é a língua portuguesa”, exclamou para meu espanto: «Então, também eu sou um pouco dessa pátria!»
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(continua, depois de publicada no Diário de Aveiro)

12 de setembro de 2007

Cartas para Sakhalin - Diário de Aveiro (15)

Elementar, meu caro Watson
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O desaparecimento de uma menina inglesa no Algarve há uns meses atrás não deixou ninguém indiferente, pelo que revela de maldade, pela certeza, entre tantas dúvidas, de que um acto imundo, desumano, foi cometido contra uma criança, indefesa, inocente.
A nacionalidade inglesa da família, a habilidade dos pais e a ajuda de elevado nível que parecem ter tido – basta ver a entrada em jogo do primeiro-ministro Gordon Brown e a recepção pelo Papa – garantiram uma mediatização do caso à escala global, o apoio generalizado da opinião pública à “família-vítima”, um reforço dos meios de investigação e até a recolha de fundos para apoiar o desígnio de encontrar a criança.
Os pais de Madeleine promoveram, aconselhados a isso ou não, um circo mediático sem precedentes em casos deste tipo. Os seus esforços para manter o caso nas aberturas dos telejornais e nas primeiras páginas da imprensa escrita foram estrategicamente ponderados. Tiveram um apoio do estado britânico digno de família real. Foram, no meu entendimento, longe demais. Houve mesmo encenações de muito mau gosto, que, por mais que queiramos, não são inocentes. Basta relembrar as idas do casal à missa ou as saídas sempre de mão dada, com a mãe empunhando simbolicamente o peluche da menina (o tal que parece ter odor a cadáver). Jogaram com a comunicação social um jogo perigoso, usando-a, e mesmo manipulando-a, com informações diferentes consoante se tratava da portuguesa ou da inglesa. Procuraram, e, de certa forma, conseguiram (o que não é nada difícil), acender uma previsível guerra mediática nada favorável para este “país do sul”, de belas praias, mas inseguro e de polícias incompetentes. O também candidato a primeiro-ministro, Gordon Brown, já havia dito que iria diligenciar no sentido de pressionar as autoridades portuguesas – quem diria?!
Todas as entrevistas e declarações parecem ter sido cautelosamente fabricadas. Aquele que é o actual assessor de imprensa do primeiro-ministro tinha sido destacado pelo governo britânico para acompanhar o casal, o que fez até meados de Junho.
O controle emocional daquelas pessoas, no contexto do horrível desaparecimento, foi admirável, devo dizê-lo. Um amigo disse-me que não o devia estranhar, pois «os ingleses são assim, “mais frios”». Não sei porquê, estranhei à mesma.
Toda uma história foi-nos contada com um guião que, sendo um drama bem organizado, ia, a pouco e pouco, fazendo sobressair, falhas no cenário, nas personagens e nas suas deixas. Como quando estamos a ver um filme sobre Roma Antiga e vemos passar ao longe um avião a jacto ou nos apercebemos do bom gosto do Imperador quando deixa antever sob as suas vestes um Rolex em ouro. Quando a comunicação social, informada oficial e oficiosamente, começou a transpirar uma tese que contrariava o desaparecimento por rapto, logo os pais se prontificaram para usar o ataque como defesa. Há demasiadas coisas que não batem certo.
O bom senso aconselha prudência nos comentários e a espera obrigatória pelos resultados da investigação. Há demasiada poeira no ar. Há umas nuvens cinzentas a pairar sobre esta investigação que, como noutros casos, procuram, numa chuvinha persistente, anular a validade da investigação e limpar o cenário do crime. Já vimos como isso resulta e no que habitualmente resulta: em nada.
Seria* muito importante que a Polícia Judiciária tivesse mais cuidado com a forma como comunica, que tem sido vergonhosa e coloca em risco muito da sua credibilidade. Onde está, por exemplo, o seu director? Pouco se tem visto a esclarecer o que se tem passado e na defesa do trabalho dos seus homens que estão a dar o corpo ao manifesto.
Nisto tudo, tem estado bem o governo português, por oposição ao inglês, que ainda não se veio meter onde não é chamado. A investigação deve decorrer sem pressões, sem intromissões.
Todos desejaríamos que a verdade fosse diferente daquela que parece ser, que a menina estivesse viva, aparecesse e tudo acabasse bem. Cada vez mais afastada essa possibilidade, como se vai tornando evidente, é primordial que se descubra a verdade e se julguem os culpados.
No meio de tanta emoção pública e difícil discernimento, devo confessar que nunca consegui sentir a empatia generalizada com o casal McCann. Talvez por ter sempre considerado pouco consistente o seu discurso e os ver como culpados de uma negligência inadmissível. Como diria Sherlock Holmes, se for verdade que o casal de médicos sedava os filhos para ir jantar descansadamente com os amigos, a coisa já indicia uma atitude bem mais grave e personalidades bem mais complexas. Elementar, meu caro Watson.
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*Na edição escrita no Diário de Aveiro, por lapso, deixei passar a forma errada "Era" em vez de "Seria"

10 de setembro de 2007

Cartas para Sakhalin - Diário de Aveiro (15)

Elementar, meu caro Watson

O desaparecimento de uma menina inglesa no Algarve há uns meses atrás não deixou ninguém indiferente, pelo que revela de maldade, pela certeza, entre tantas dúvidas, de que um acto imundo, desumano, foi cometido contra uma criança, indefesa, inocente.
A nacionalidade inglesa da família, a habilidade dos pais e a ajuda de elevado nível que parecem ter tido – basta ver a entrada em jogo do primeiro-ministro Gordon Brown e a recepção pelo Papa – garantiram uma mediatização do caso à escala global, o apoio generalizado da opinião pública à “família-vítima”, um reforço dos meios de investigação e até a recolha de fundos para apoiar o desígnio de encontrar a criança.
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(amanhã no Diário de Aveiro)

6 de setembro de 2007

Cartas para Sakhalin - Diário de Aveiro (14)

Sorte grande ou terminação?

Todos conhecemos casos de abuso do Estado ou da Administração Pública sobre os cidadãos, sobre as pessoas. Todos temos percepção de uma generalizada impotência face a esse gigante.
Por vezes são fruto do mau desempenho e até do mau carácter de alguns dos seus agentes (ou colaboradores, como agora tanto se diz) e dirigentes, que se esquecem que estão ao serviço de todos os cidadãos, sem excepção, ricos ou pobres, poderosos ou fracos. É para isso que se aufere um vencimento que provém dos impostos dos contribuintes, pagos com o árduo esforço de todos os dias, na esperança de termos uma sociedade mais solidária, justa, livre, protegida por uma estrutura que garanta a sua organização e coesão. Na verdade, há quem esqueça que esse esforço é enorme e que, ao contrário daquilo que compramos em regime de concorrência, no que diz respeito aos serviços públicos, não temos grande escolha.
Mas é também o Estado hegemónico e gigante nos meandros da máquina organizativa, da burocracia, do aparelho, das leis e do funcionamento da justiça que, como uma espécie de monstro sem rosto, uma abstracção violenta, invade tantas vezes as nossas vidas, nos suga as energias, os recursos, abusa da nossa liberdade, viola os nossos direitos.
Não quero entrar num discurso demagógico e moralista, apenas sublinhar aquilo que todos sabem. Estamos conscientes, ainda que nos raros momentos de lucidez que a sensação de impotência nos permite, de que muito do que acontece é claramente um problema de cultura, responsabilidade de todos: não participamos como devíamos, não exigimos, temos um discurso e uma prática que são muitas vezes antagónicos. É como quando nos queixamos de que os outros fogem aos impostos, especialmente os grandes empresários – esses avultados pecadores –, mas também arranjamos os nossos subterfúgios para não os pagar – nós podemos cometer o pecadilho, porque temos pouco –, ou quando aceitamos todos os atentados contra o que consideramos certo, apenas porque são perpetrados pelo nosso partido-clube, ou a cunha quando é para alguém da família, e por aí adiante.
Uma coisa é certa, vivemos num país que, 33 anos depois da queda da ditadura, já devia apresentar outra maturidade social. No entanto, sobretudo para os menos fortes e afortunados, a noite democrática, frustração de tantas promessas, repetidas até à náusea, é palco de muitos pesadelos. Numa altura de dificuldades económicas, as coisas pioram e os efeitos perversos do nosso periclitante humanismo, da nossa insensibilidade perante o outro, os seus direitos e as suas carências, e sobretudo perante os nossos deveres, tornam-se mais nefastos. Além dos medíocres abusos patronais tão generalizados, públicos e privados, nomeadamente sob ameaça de despedimento, velada ou não, para subjugar empregados, vulneráveis num clima de elevado desemprego e muitas contas para pagar, temos que aturar os erros e danos causados pelo pai-tirano-Estado no âmbito das suas decisões, processos, atrasos e castigos sem apelo.
A este propósito, o parlamento aprovou recentemente por unanimidade uma lei de responsabilidade extracontratual do Estado cujo objectivo era defender os cidadãos do seu livre arbítrio e habitual impunidade, atribuindo-lhes maior capacidade para exigir indemnizações pelos danos causados. O Presidente da República vetou-a, com a preocupação central de que os seus custos para o erário público (contribuintes) possam ser demasiado elevados e os tribunais, já tão inoperantes, possam ser sobrecarregados com um (adivinhado) crescendo de processos. Por isso, devolveu o diploma ao hemiciclo para que seja revisto e (novas) contas sejam feitas.
Apesar de estar ao lado dos princípios que a lei encerra, o Presidente preferiu defender o sacro-Estado, conjunto dos cidadãos abstractos, em vez de se colocar ao lado das pessoas reais. Assim, em vez de se colocar a pressão na máquina desajeitada, ineficiente, arrogante e por vezes desonesta da Administração, para que funcione melhor, evitando os custos dos seus erros, teremos de aguardar melhores dias, continuando a financiar privadamente, subjugados, a manutenção dos seus podres.
Embora se compreendam, com realismo, as preocupações do Presidente, fica-nos a esperança de que os deputados voltem a fazer as contas e que, quando a lotaria parlamentar andar à roda, nos saia a sorte grande em vez da terminação.
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Nota: tive conhecimento desta decisão do Presidente através do FJV no seu texto O mau estado dos cidadãos em A Origem das Espécies. É também natural que algumas das suas críticas apareçam aqui, pois concordo em absoluto com elas. Just for the record.

28 de agosto de 2007

Cartas para Sakhalin - Diário de Aveiro (13)

Jovens transgénicos

Há uns dias atrás, lá para os algarves, um bando de jovens radicais, sem objectivos de futuro, decidiu dedicar-se à ceifa do milho, neste caso milho transgénico. Parece até estranho que eu apelide assim esta juventude dedicada às tarefas agrícolas, tão nobres e necessárias. Quem não sente admiração pelos homens e mulheres do campo, pelas pessoas que todos os dias, de sol-a-sol, como se dizia antigamente, produzem aquilo que vem parar às nossas mesas? Quem não tem até o sonho de, um dia, quando puder, se retirar para o campo e dedicar à terra e ao convívio com a natureza?
Mas aqui a cultura é outra: a falta dela. Um grupo de jovens (já com idade para ter juízo), portugueses e estrangeiros, reunidos numa iniciativa em prol do Mundo Verde ou coisa que o valha – eu prefiro a imagem do planeta azul, mais equilibrada -, decidiram fazer uma palhaçada mediática e destruir um hectare de milho transgénico, propriedade de um agricultor que não os conhece, nunca lhes fez mal, e, pormenor secundário, tinha a plantação legal, segundo as normas. Mas os salvadores do mundo não viram as coisas assim, tão simples, e complicaram.
No intervalo para o lanche, do tal encontro ecológico (Ecotopia), decidiram intervir, numa acção que apelidaram de «desobediência civil», e foram praticar um acto criminoso, nas barbas da televisão (que devem ter avisado para conseguir a propaganda desejada) e da GNR (que também devia saber da coisa e não fez nada de especial para a impedir). Mas, com medo do pólen transgénico, coitadinhos, que os podia intoxicar ou mesmo induzir modificações nos seus pobres genes, levaram máscaras ou taparam a cara com aqueles ecológicos lenços Yasser Arafat. Que conveniente. A GNR identificou meia dúzia, porque os outros não tinham documentos. Que conveniente.
De positivo, nas reacções a este espalhafato, a forma como o Presidente da República pediu responsabilidades. De negativo, sobressaem duas ou três coisas, para além do gesto da ecocanalha e do prejuízo de quem se esfalfa a trabalhar para ganhar a vida. A GNR não agiu como devia, detendo quem, apanhado em flagrante delito, praticava o crime, como a isso obriga o nosso Código Penal – resta saber por que razão. O ministro da Administração Interna ainda veio dizer que ia averiguar, abrir processo, mas pouco depois logo se apressou a apresentar uma espécie de conclusão a priori, defendendo a GNR, com uma explicação jurídica trapezista, tão ao seu gosto, que considera ter actuado como devia – o que é, pelo menos, incrível! Alguns responsáveis do Bloco de Esquerda mostraram simpatia pela acção, o que, apesar de não ser de estranhar, não deixa de ser lamentável. Faz lembrar que o partido ainda mantém, lá no fundo, bem guardadas, as raízes da sua génese. Recordo-me agora de, em tempos, ter visto a promoção de um dos seus cursos de «desobediência civil» e não ter percebido do que se consistiria. Agora percebo melhor.
Esta malta, esta carneirada de “diferentes” – que mistura meninos ricos sem o que fazer (cujos pais tudo abonam), religiosos fanáticos do Verdismo (cuidado, alguns do meio académico), fãs do duo Che-Che (inventores da Cuba Libre), apreciadores de maconha, haxixe, cogumelos e outras iguarias (é lá com eles), festivaleiros frustrados e membros de múltiplas tribos -, com propensão para querer impor-nos, à foice, a sua ideia de paraíso, é perigosa. Aqueles que fizeram a ceifa simbólica deviam ter ido perante um juiz e, nesta altura, deviam estar, pelo menos, a pagar a devida conta.
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Este texto corresponde à crónica semanal editada no jornal regional Diário de Aveiro e deve ser lido nesse contexto. Muitos dos aspectos focados já antes haviam sido referidos no blog, pelo que poderia parecer estranha a reincidência.