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12 de dezembro de 2007

James Watson

Para ajudar a compreender a polémica em torno das afirmações de Watson referidas no artigo do Alexandre:
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James D. Watson (Nobel Prize)
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« Last night, at a book launch at the Royal Society, Dr Watson withdrew the words attributed to him. “To all those who have drawn the inference from my words that Africa, as a continent, is somehow genetically inferior, I can only apologise unreservedly,” he said. “That is not what I meant. More importantly, there is no scientific basis for such a belief.” (aqui)

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«To question genetic intelligence is not racism
Independent, The (London), Oct 19, 2007
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Science is no stranger to controversy. The pursuit of discovery, of knowledge, is often uncomfortable and disconcerting. I have never been one to shy away from stating what I believe to be the truth, however difficult it might prove to be. This has, at times, got me in hot water.
Rarely more so than right now, where I find myself at the centre of a storm of criticism. I can understand much of this reaction. For if I said what I was quoted as saying, then I can only admit that I am bewildered by it. To those who have drawn the inference from my words that Africa, as a continent, is somehow genetically inferior, I can only apologise unreservedly. That is not what I meant. More importantly from my point of view, there is no scientific basis for such a belief.» (aqui)
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«James Watson: 'Não é racismo'
Publicada em 19/10/2007 às 12h15m O Globo
"A ciência não é estranha à controvérsia. A busca de conhecimento é freqüentemente desconfortável e desconcertante. Nunca temi declarar o que acredito ser verdade, não importando o quão difícil seja. Isso, de vez em quando, me deixa em maus lençóis. Raras vezes mais do que agora, em que me encontro no centro de uma tempestade. Entendo boa parte da reação. Porque se eu disse o que escreveram que disse, então só me resta admitir que estou perplexo. Para aqueles que inferiram das minhas palavras que a África, como um continente, é, de alguma forma, geneticamente inferior, só me resta pedir desculpas públicas. Não foi o que eu quis dizer. Mais importante, do meu ponto de vista, não há base científica para tal crença. Sempre fui um feroz defensor da posição de que devemos basear nossa visão do mundo em fatos. Por isso a genética é tão importante. Porque nos leva a respostas para muitas das maiores e mais difíceis questões. »
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The Elementary DNA of Dr Watson (o texto/entrevista da polémica)
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1 de maio de 2007

Cartas Para Sakhalin - Diário de Aveiro (002)

Temos assistido nos últimos tempos a manifestações de intolerância face à presença em Portugal de “estrangeiros”, nomeadamente pela mão do Partido Nacional Renovador. É de todos conhecido o caso mediático do cartaz do PNR na Praça Marquês de Pombal em Lisboa, que dizia, entre outras coisas, “Basta de imigração”. No fundo, todos sabemos ler nas entrelinhas racismo e xenofobia encapotados, vestindo uma máscara de legalidade. Todos nós, no nosso dia-a-dia temos contacto com esta realidade, com a defesa destas ideias, umas vezes à boca-cheia, outras à boca-pequena. A forma silenciosa é a mais perigosa, pois mina qualquer sociedade como uma erva-daninha mina qualquer cultura.
Apesar de abominar as ideias preconizadas, considero fundamental garantir a liberdade de expressão como um dos pilares do Estado de Direito, democrático, livre. O combate de ideias que consideramos maléficas deve ser feito sem procurar esmagar quem pensa de modo diferente, pois toda a força que aí colocarmos voltar-se-á irremediavelmente contra nós e os princípios que advogamos (e foram construídos, conquistados, ao longo de séculos de evolução da humanidade). A tolerância, que não é indiferença, obriga-nos a permitir que tais ideias – por mais que nos custe – se expressem em liberdade e os seus defensores não sejam alvo de perseguição. Porém, devemos estar vigilantes, e actuantes, especialmente se identificarmos o lobo vestido de cordeiro, que esconde intenções proibidas pela Lei e, como parece ser o caso, mais do que isso: armas e vontade de violência sobre outros seres humanos. Neste caso, a Lei deve ser exímia e não permitir veleidades. Devemos ser irredutíveis na defesa dos valores da nossa civilização, que, diga-se o que se disser, com todas as suas falhas, é a mais avançada na protecção aos direitos humanos, no cumprimento da legalidade, na procura de justiça.
O racismo e a xenofobia são sinónimos de pobre (e muitas vezes maldosa) ignorância, terra profícua para o medo e a violência.
Aqueles que procuram legitimar o seu preconceito com a ciência podem esquecer o apoio desta – as “raças humanas” não existem, diz a biologia. As raças formam-se quando se mantêm populações isoladas umas das outras, impedindo que os seus elementos migrem entre si e se cruzem, durante o tempo suficiente para que estas evoluam distintamente, o que não é o caso. E quanto à cor da pele, por exemplo, tão utilizada para discriminar: a de cor escura, partilhada pelos povos tropicais, é apenas uma adaptação que a selecção natural favoreceu para nos proteger do excesso de radiação solar e nada mais. Não há, nem houve – apesar do desejo de alguns, como Hitler – um isolamento genético que alicerce a separação dos Homens em raças, muito menos em superiores e inferiores.
Portugal é uma feliz amálgama dos genes e das culturas de celtas, fenícios, romanos, visigodos, árabes, judeus, africanos, entre outros – não o reconhecer é renegar os nossos antepassados e a nossa identidade.
O nosso primeiro rei, D. Afonso Henriques, depois da conquista aos mouros do território a sul, sendo católico, permitiu que eles fossem portugueses, vivendo segundo a sua religião, respeitando a soberania do Estado que construía, num clima de mútuo respeito religioso e de costumes.
Desses povos ficaram-nos muitas riquezas, sendo a maior de todas, sem dúvida, a nossa identidade.
O feito dos Descobrimentos, que tanto orgulha os portugueses (alguns idiotas), nunca teria sido possível sem o contributo, especialmente intelectual, desses povos e dos imigrantes que acolhemos na época. Tínhamos recebido palavras que ampliavam a nossa língua e a nossa capacidade de sonhar. Tínhamos usufruído de conhecimentos científicos e tecnológicos que nos haviam transformado numa das nações mais avançadas, só assim capaz de navegar «por mares nunca dantes navegados». Fomos um país aberto, enriquecido nessa diversidade – buscámo-la em toda a parte, e a toda a parte a levámos. Fizemos a globalização cultural, e só então o Mundo foi inteiro.
Entre outras influências, a dos judeus foi vital, mas a inveja pelas suas fortunas foi encontrar na Inquisição e na fraqueza dos nossos soberanos o rastilho da sua perseguição e da nossa desventura. O fechamento de Portugal ao Mundo só nos trouxe pobreza, material e espiritual.
No campo das minhas opções pessoais ou, porque não, do desejo, considero os portugueses um povo do Mundo vasto e diverso, e prefiro claramente a pátria da língua à outra. Não consigo sequer imaginar a minha existência sem os outros povos e culturas dos países da CPLP. Além do mais, não considero portugueses apenas aqueles que têm pais portugueses, nasceram e vivem em Portugal. São antes aqueles que se sentem portugueses, independentemente da naturalidade, da cor da pele, da religião, das opções ideológicas e até da posição geográfica. Esse Portugal está muito para além das suas fronteiras físicas e não é nacionalista. Sei, claro, que devem existir regras no campo da realidade formal para a atribuição da nacionalidade – falava de outra coisa –, mas mesmo nesta matéria defendo um país mais aberto aos “estrangeiros”, à multiculturalidade – só temos a ganhar com isso.
José María Aznar, o anterior presidente do governo espanhol, disse no Porto a semana passada: «Dizem que o multiculturalismo é o exemplo máximo de tolerância. Não é assim. Haver uma lei igual para todos é que é tolerância.»1 Eu quero interpretar o que disse como: interculturalismo sim, numa perspectiva dinâmica, sem que a defesa da diversidade cultural sirva para sustentar práticas que coloquem em causa as conquistas da nossa civilização em matéria de liberdade e direitos humanos.
A cegueira do racismo e da xenofobia combate-se pela educação, e também pela integração dos estrangeiros, no respeito pela Lei – o que exige igualmente um esforço da sua parte! Todos devem poder viver sem medo, livres, salvaguardados nas condições mínimas de humanidade, e com condições de acesso às oportunidades para prosperar pelo mérito. Ninguém deve ser oprimido ou perseguido, por gestos, palavras ou omissões. Aqui, como em quase tudo, a verdade e o exemplo são traves mestras. Quantas vezes não ouvimos entre amigos e conhecidos – de diferentes graus de formação, classes sociais e opções ideológicas – discursos díspares? Um para consumo público, politicamente correcto, e outro, entre dentes, lá vai mostrando esse desdém pelo outro que é diferente.
A ignorância cultural, as dificuldades económicas e a insegurança face ao futuro agravam este clima de conflituosidade latente. Devemos exigir a todos – nacionais e estrangeiros – um maior empenho na construção de pontes para a compreensão mútua, integrada, é óbvio, no respeito pelos direitos humanos.
Um país de navegadores e emigrantes, que dessas viagens “enriqueceu” humana, cultural e materialmente, merecia (devia) ter vistas mais largas!

1 Fonte: jornal Público