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4 de junho de 2008

Amazónia

Às vezes, dependendo de quem está nos governos, a culpa é dos governos. Agora, não é de Lula, pois não?

23 de maio de 2008

21 de maio de 2008

26 de julho de 2007

Sarkozy

Sarkozy, se mantiver a tendência, há-de transformar-se num furacão político. Se mantiver a consistência, também. Sarkozy há-de surpreender, parece surpreender. E logo fazendo, agindo, nos campos em que todos os seus adversários "ideológicos" consideram suas coutadas privadas (curioso). Se Sarkozy estiver a ser genuino nos seus sentimentos, a França pode mudar e vir a ser uma peça fundamental de uma nova Europa. Nascerá, lentamente, uma nova ideia.
A sua acção prática, metendo pés ao caminho em questões que muitos políticos consideram menores, deixando-as para os "serviços", como é o caso das enfermeiras e outros, revela uma nova atitude. O tipo dá cara, chega-se à frente, como se diz na minha terra. Isso faz muita diferença, acreditem. Para os franceses, assim como para outros, na altura em que estamos, valerá mais esse "humanismo", o respeito pelas pessoas, pelos cidadãos, pela liberdade, pela responsabilidade, mas também a valorização da iniciativa, do trabalho, do esforço, do que mil teorias sobre a facilidade.

1 de maio de 2007

Cartas Para Sakhalin - Diário de Aveiro (002)

Temos assistido nos últimos tempos a manifestações de intolerância face à presença em Portugal de “estrangeiros”, nomeadamente pela mão do Partido Nacional Renovador. É de todos conhecido o caso mediático do cartaz do PNR na Praça Marquês de Pombal em Lisboa, que dizia, entre outras coisas, “Basta de imigração”. No fundo, todos sabemos ler nas entrelinhas racismo e xenofobia encapotados, vestindo uma máscara de legalidade. Todos nós, no nosso dia-a-dia temos contacto com esta realidade, com a defesa destas ideias, umas vezes à boca-cheia, outras à boca-pequena. A forma silenciosa é a mais perigosa, pois mina qualquer sociedade como uma erva-daninha mina qualquer cultura.
Apesar de abominar as ideias preconizadas, considero fundamental garantir a liberdade de expressão como um dos pilares do Estado de Direito, democrático, livre. O combate de ideias que consideramos maléficas deve ser feito sem procurar esmagar quem pensa de modo diferente, pois toda a força que aí colocarmos voltar-se-á irremediavelmente contra nós e os princípios que advogamos (e foram construídos, conquistados, ao longo de séculos de evolução da humanidade). A tolerância, que não é indiferença, obriga-nos a permitir que tais ideias – por mais que nos custe – se expressem em liberdade e os seus defensores não sejam alvo de perseguição. Porém, devemos estar vigilantes, e actuantes, especialmente se identificarmos o lobo vestido de cordeiro, que esconde intenções proibidas pela Lei e, como parece ser o caso, mais do que isso: armas e vontade de violência sobre outros seres humanos. Neste caso, a Lei deve ser exímia e não permitir veleidades. Devemos ser irredutíveis na defesa dos valores da nossa civilização, que, diga-se o que se disser, com todas as suas falhas, é a mais avançada na protecção aos direitos humanos, no cumprimento da legalidade, na procura de justiça.
O racismo e a xenofobia são sinónimos de pobre (e muitas vezes maldosa) ignorância, terra profícua para o medo e a violência.
Aqueles que procuram legitimar o seu preconceito com a ciência podem esquecer o apoio desta – as “raças humanas” não existem, diz a biologia. As raças formam-se quando se mantêm populações isoladas umas das outras, impedindo que os seus elementos migrem entre si e se cruzem, durante o tempo suficiente para que estas evoluam distintamente, o que não é o caso. E quanto à cor da pele, por exemplo, tão utilizada para discriminar: a de cor escura, partilhada pelos povos tropicais, é apenas uma adaptação que a selecção natural favoreceu para nos proteger do excesso de radiação solar e nada mais. Não há, nem houve – apesar do desejo de alguns, como Hitler – um isolamento genético que alicerce a separação dos Homens em raças, muito menos em superiores e inferiores.
Portugal é uma feliz amálgama dos genes e das culturas de celtas, fenícios, romanos, visigodos, árabes, judeus, africanos, entre outros – não o reconhecer é renegar os nossos antepassados e a nossa identidade.
O nosso primeiro rei, D. Afonso Henriques, depois da conquista aos mouros do território a sul, sendo católico, permitiu que eles fossem portugueses, vivendo segundo a sua religião, respeitando a soberania do Estado que construía, num clima de mútuo respeito religioso e de costumes.
Desses povos ficaram-nos muitas riquezas, sendo a maior de todas, sem dúvida, a nossa identidade.
O feito dos Descobrimentos, que tanto orgulha os portugueses (alguns idiotas), nunca teria sido possível sem o contributo, especialmente intelectual, desses povos e dos imigrantes que acolhemos na época. Tínhamos recebido palavras que ampliavam a nossa língua e a nossa capacidade de sonhar. Tínhamos usufruído de conhecimentos científicos e tecnológicos que nos haviam transformado numa das nações mais avançadas, só assim capaz de navegar «por mares nunca dantes navegados». Fomos um país aberto, enriquecido nessa diversidade – buscámo-la em toda a parte, e a toda a parte a levámos. Fizemos a globalização cultural, e só então o Mundo foi inteiro.
Entre outras influências, a dos judeus foi vital, mas a inveja pelas suas fortunas foi encontrar na Inquisição e na fraqueza dos nossos soberanos o rastilho da sua perseguição e da nossa desventura. O fechamento de Portugal ao Mundo só nos trouxe pobreza, material e espiritual.
No campo das minhas opções pessoais ou, porque não, do desejo, considero os portugueses um povo do Mundo vasto e diverso, e prefiro claramente a pátria da língua à outra. Não consigo sequer imaginar a minha existência sem os outros povos e culturas dos países da CPLP. Além do mais, não considero portugueses apenas aqueles que têm pais portugueses, nasceram e vivem em Portugal. São antes aqueles que se sentem portugueses, independentemente da naturalidade, da cor da pele, da religião, das opções ideológicas e até da posição geográfica. Esse Portugal está muito para além das suas fronteiras físicas e não é nacionalista. Sei, claro, que devem existir regras no campo da realidade formal para a atribuição da nacionalidade – falava de outra coisa –, mas mesmo nesta matéria defendo um país mais aberto aos “estrangeiros”, à multiculturalidade – só temos a ganhar com isso.
José María Aznar, o anterior presidente do governo espanhol, disse no Porto a semana passada: «Dizem que o multiculturalismo é o exemplo máximo de tolerância. Não é assim. Haver uma lei igual para todos é que é tolerância.»1 Eu quero interpretar o que disse como: interculturalismo sim, numa perspectiva dinâmica, sem que a defesa da diversidade cultural sirva para sustentar práticas que coloquem em causa as conquistas da nossa civilização em matéria de liberdade e direitos humanos.
A cegueira do racismo e da xenofobia combate-se pela educação, e também pela integração dos estrangeiros, no respeito pela Lei – o que exige igualmente um esforço da sua parte! Todos devem poder viver sem medo, livres, salvaguardados nas condições mínimas de humanidade, e com condições de acesso às oportunidades para prosperar pelo mérito. Ninguém deve ser oprimido ou perseguido, por gestos, palavras ou omissões. Aqui, como em quase tudo, a verdade e o exemplo são traves mestras. Quantas vezes não ouvimos entre amigos e conhecidos – de diferentes graus de formação, classes sociais e opções ideológicas – discursos díspares? Um para consumo público, politicamente correcto, e outro, entre dentes, lá vai mostrando esse desdém pelo outro que é diferente.
A ignorância cultural, as dificuldades económicas e a insegurança face ao futuro agravam este clima de conflituosidade latente. Devemos exigir a todos – nacionais e estrangeiros – um maior empenho na construção de pontes para a compreensão mútua, integrada, é óbvio, no respeito pelos direitos humanos.
Um país de navegadores e emigrantes, que dessas viagens “enriqueceu” humana, cultural e materialmente, merecia (devia) ter vistas mais largas!

1 Fonte: jornal Público

24 de abril de 2007

Cartas Para Sakhalin - Diário de Aveiro (001)

...Vivemos um mundo complexo, consciência que ganha relevo à medida em que desvanecem desejadas inocências. Não há maneira de o evitar: é preciso olho vivo em cima de pé ligeiro. É necessário saber ler a realidade, tarefa nada fácil!
...A vida ela própria é um livro. As suas páginas mais intrincadas, por vezes de difícil ou angustiante leitura, que vão fazendo estremecer as certezas que sempre procurámos construir como base mínima da nossa sanidade pessoal e social, devemos reequacioná-las como problemas a resolver: desafios. Nada de desistências a favor da maré, por mais árduo que isso seja, por mais tentação que o comodismo possa trazer-nos. Já nem vou falar daquela ideia juvenil de querer mudar o Mundo, apesar de ter de confessar que me desagrada ver que cada vez mais se considera tal ingenuidade uma fraqueza de espírito. Adiante.
...Como alguns vaticinaram e outros desejaram, o fim da história não existe. Mais: depois das duas grandes guerras, apesar da guerra fria, as coisas pareciam mais simples, nessa realidade bi-polar. A velha Europa, trilhando o seu caminho entre os dois blocos, organizava-se como espaço de prosperidade e de paz – havia uma ideia mobilizadora, protagonizada por grandes Homens. A ONU ganhava forma como ideal de defesa dos Direitos Humanos e garante de uma Ordem Internacional. As coisas só podiam melhorar e, de certa forma, é claro, melhoraram. Há mais países em democracia, há mais vigilância sobre os Direitos Humanos, mais consciência dos problemas, estejam eles relacionados com a guerra, a fome, atentados ambientais ou o terrorismo. Porém, temos motivos de sobra para estarmos preocupados com o futuro e nos mantermos vigilantes. Mais do que isso: actuantes.
...O mundo provou ser mais complexo, e até perverso, do que imaginaríamos ou desejaríamos, sim, e nessa penumbra, enfrentamos, com o passar dos anos, a dura realidade do limite das nossas capacidades para vencer temível torrente. Há contudo uma réstia de luz que, por fortuna, permanece desenhando o horizonte: os Homens são também capazes de obras maravilhosas e, quando unidos na vontade, no esforço, nos princípios, na solidariedade e no respeito mútuo, podem mesmo mudar o Mundo, nem que seja, lentamente, alguns milímetros para melhor. Não é sequer necessária a apologia extremista de um Mundo asséptico, imposto por iluminados – ao gosto de tantos –, mas apenas e só de uma vida mais equilibrada, melhor para todos.
...Acredito que estamos numa posição de partida melhor do que alguma vez estivemos. Vivemos numa aldeia global, numa sociedade de informação, onde tudo se sabe, ou quase tudo (eu sei). Esse mundo entra-nos pela casa dentro e generalizam-se, abrindo telejornais, as suas imagens mais sombrias. Isso pode levar-nos a formar, distraidamente, uma perigosa Cortina de Indiferença. É a fome em África, na Ásia, na América Latina – somando-se desastres naturais –, o que se passa no Darfur e em muitos mais lugares, os Direitos Humanos espezinhados todos os dias por todo o lado, a falência da educação e da política, a corrupção, a crescente escravidão humana, racismo, intolerância. Para uns tudo se resume, confortavelmente, ao “eixo do mal”, para outros ao “mal americano” e aos judeus. Há sempre um inimigo ideológico, um planeta a preto e branco – errado!
...É um novelo intrincado esta nossa Terra, parecendo exasperante, mesmo impossível a descoberta das pontas que permitam domá-lo. Um velhote enigmático (e sábio) que conheci há muitos anos disse-me que as pontas desse novelo se encontram uma dentro de cada um de nós e a outra na nossa própria Rua! E terminou dizendo que era preciso percorrê-la descalço, com menos vaidade, em silêncio, escutando, estendendo as mãos.
...Como o Diário de Aveiro teve a amabilidade – e corre o risco – de me emprestar este espaço, eu junto ao ensinamento do ancião a obrigatoriedade de fazermos ouvir a nossa voz.

Nota: Esta crónica será semanal e tematicamente livre. Falará de política(s), livros, arte, blogues e sentimentos. Terá em grande atenção o espaço da lusofonia, que me é muito querido, Será publicada também num blogue com o mesmo nome (http://cartassakhalin.blogspot.com/), lugar mais vasto para as opiniões do autor. Toma o nome de Cartas para Sakhalin porque é o local mais longínquo que conheço – para lá da Sibéria – onde sei que serão lidas.