O Francisco José Viegas, que também abordou esta questão da presença de mulheres no governo (já havia comparado Portugal com a França: post de 18/05), foi alertado para um caso onde elas ganham, de longe: a Finlândia. Aí são 12 mulheres num governo de 20!
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22 de maio de 2007
Cartas Para Sakhalin - Diário de Aveiro (005)
O nosso esplendor.
Teremos herdado da nossa gloriosa história, apesar das muitas coisas que não nos deverão deixar orgulhosos, uma certa ansiedade de grandeza. Não está mal querermos ser bons. Não está errado querermos estar entre os melhores. Já não consigo perceber onde fomos buscar a ideia de o conseguir sem trabalho duro. De onde veio esta moda, tão em voga, de glória fácil?
As manifestações dessa (fraca) vontade em sermos “os melhores de todos”, a todo o custo, são muitas. O problema é que nem sempre colocamos esforço nas tarefas mais dignificantes e valiosas para o nosso bem-estar, aquelas que nos garantiriam um futuro solidamente melhor.
Basta dar uma olhadela à televisão para verificar que são cada vez mais as pessoas que procuram o êxito fácil e efémero, sonhando-o duradouro. São muitos os que procuram fama e dinheiro em concursos totalmente imbecis, devassando a sua intimidade, mostrando, normalmente, o que têm de mais básico. São as notícias que, a propósito de uma qualquer zanga de fiéis e beatas com o padre, colocam a aldeia no mapa dos cidadãos cientes dos seus direitos, dando-lhes 30 segundos de sucesso televisivo. É o cromo da televisão que se coloca atrás do entrevistado para aparecer (e quantos políticos não vemos também a fazer esta figurinha?).
Mas somos também profícuos a bater recordes. Na edição comemorativa dos 50 anos do livro Guinness (2005), entre excentricidades para todos os gostos, há 24 pérolas portuguesas. Lá diz, por exemplo, que temos o maior reinado (D. Afonso Henriques, com 73 anos e 220 dias) – este é natural que o asseguremos por muitos anos –, o maior logótipo humano (Euro 2004), a maior bicicleta, a maior francesinha e o maior pão com chouriço, claro. (1) Com muita pena minha, não pude confirmar se ainda é nossa a maior feijoada. Apesar de nem sermos os detentores dos mais loucos, isso não alivia nem um pouco aquilo que me preocupa. É que me parece que é crescente entre nós a mania das grandezas fáceis, em vez de colocarmos tónica no estudo, na dedicação, na perseverança, no trabalho árduo, que tenha resultados para lá do imediato.
Não teremos maiores nem menores capacidades do que outros povos. Não estaremos fadados para o infortúnio e a pobreza por qualquer desígnio superior. E é por isso que temos de corrigir o nosso comportamento – chega de discurso mole e desculpas fáceis. A mudança está em cada um de nós.
Os exemplos de desleixe e falta de esforço são inúmeros, assim como são os de abuso da lei e do poder, de permissividade e de impunidade para quem passa a perna nos outros. É a sociedade dos direitos sem deveres que erigimos tijolo a tijolo sobre areias movediças. É a telenovela «se é bom para mim, é um direito meu».
O mal, inevitavelmente, entrou pelas escolas dentro. Apesar do facilitismo instalado, nunca se copiou tanto nas escolas e nas universidades portuguesas, algo que seria, noutras paragens, motivo de profunda vergonha e expulsão. São cada vez mais os casos de plágio, perpetrado até por gente com responsabilidades educativas. Mas não se atribua à escola a responsabilidade deste desvario, não, porque esse é, mais uma vez, o caminho fácil. O vírus está espalhado por aí, por todo o lado. Apanha-se em casa, na televisão, nas ruas, no trabalho, no parlamento. É uma epidemia – veja-se a promiscuidade galopante entre políticos e interesses – e, como tal, tem que nos envolver a todos num combate sem tréguas.
O caminho mais fácil, o do Chico-esperto, ganhou simpatizantes e até o aplauso do público, que muitas vezes assiste deleitado ao triste espectáculo. Pessoas que espezinham as regras mais básicas de respeito pelos outros, pessoas que dão o golpe nas filas de espera, estacionam nos lugares dos deficientes, não respeitam idosos, conduzem violentamente – teremos certamente o recorde de acidentes na estrada –, não respeitam o silêncio numa biblioteca, atiram lixo das janelas dos carros, fazem trinta-por-uma-linha. Podíamos ir por aí fora sem parar nos caminhos do facilitismo, prova triste do desejo de encontrar uma felicidade fácil e rápida, sem trabalho, sem deveres.
Será assim que se pretende levantar hoje de novo o esplendor de Portugal?
O rapaz que queria ser alguém
Um rapaz de 16 anos andava com sinais comportamentais estranhos. Dizia a mãe que ele devia ter algum problema psicológico, desses que o Freud enunciou, pois só arranjava chatices na escola, e não era melhor a caminho de casa. Faltava às aulas, não estudava, já tinha sido apanhado a copiar, saltava os muros da escola para vadiar na vila e fazer tropelias que lhe granjearam o epíteto de “terrível” – uma vergonha, sobretudo para uma família tão rica e esmerada nos preceitos das aparências sociais.
Afinal, o que poderia estar errado com aquele miúdo cuja educação era, no desabafo da mãe, «tão boa»? «Não lhe dei eu tanto conselho? Não lhe deu o pai quando ele fez asneira? Não somos nós um exemplo?»
A pobre senhora não entendia tamanha injustiça. Sobretudo não entendia como é que os filhos dos vizinhos, seus colegas de escola, gente pobre e humilde, eram bons alunos e, não sendo nenhuns santinhos, os seus estragos não eram por aí além. Foi então que decidiu levá-lo ao psicólogo, o que só por si já era sinal de distinção social lá na terra.
De lá veio mais descansada, mais aliviada com o diagnóstico, que rapidamente comunicou a todos, como se da cura se tratasse. Afinal, não era grave, nem sequer chegava a ser doença, antes pelo contrário: «O psicólogo disse-me que ele até tem muita vontade de ser alguém na vida.»
Na verdade, não sabemos o que o psicólogo lhe terá dito – certamente mais. Talvez algo que se tenha perdido na complexidade da linguagem técnica. Ou terá acontecido que só ouviu aquilo que queria ouvir e dito aquilo que queria dizer.
Pelo resultado da coisa, não compreenderam – especialmente os pais – que é imprescindível mais amor, mais compreensão, mais intimidade, mais tempo, mais comunicação, conselho amigo. Não compreenderam – especialmente o filho – que é preciso esforço, trabalho e dedicação, para «ser alguém na vida».
A superioridade daquela frase, bradada com tamanha ostentação, perdurou na cabeça dalguns dos miúdos lá da rua: será que eles também poderiam «ser alguém na vida?» Tiveram a sorte de lhes terem dito atempadamente que isso é mais do que ter dinheiro e fama rápida. É ter princípios, honestidade, dignidade, é conquistar com seriedade e justiça um lugar entre os outros, e não acima dos outros.
Governo e Igualdade de Oportunidades.
Teremos herdado da nossa gloriosa história, apesar das muitas coisas que não nos deverão deixar orgulhosos, uma certa ansiedade de grandeza. Não está mal querermos ser bons. Não está errado querermos estar entre os melhores. Já não consigo perceber onde fomos buscar a ideia de o conseguir sem trabalho duro. De onde veio esta moda, tão em voga, de glória fácil?
As manifestações dessa (fraca) vontade em sermos “os melhores de todos”, a todo o custo, são muitas. O problema é que nem sempre colocamos esforço nas tarefas mais dignificantes e valiosas para o nosso bem-estar, aquelas que nos garantiriam um futuro solidamente melhor.
Basta dar uma olhadela à televisão para verificar que são cada vez mais as pessoas que procuram o êxito fácil e efémero, sonhando-o duradouro. São muitos os que procuram fama e dinheiro em concursos totalmente imbecis, devassando a sua intimidade, mostrando, normalmente, o que têm de mais básico. São as notícias que, a propósito de uma qualquer zanga de fiéis e beatas com o padre, colocam a aldeia no mapa dos cidadãos cientes dos seus direitos, dando-lhes 30 segundos de sucesso televisivo. É o cromo da televisão que se coloca atrás do entrevistado para aparecer (e quantos políticos não vemos também a fazer esta figurinha?).
Mas somos também profícuos a bater recordes. Na edição comemorativa dos 50 anos do livro Guinness (2005), entre excentricidades para todos os gostos, há 24 pérolas portuguesas. Lá diz, por exemplo, que temos o maior reinado (D. Afonso Henriques, com 73 anos e 220 dias) – este é natural que o asseguremos por muitos anos –, o maior logótipo humano (Euro 2004), a maior bicicleta, a maior francesinha e o maior pão com chouriço, claro. (1) Com muita pena minha, não pude confirmar se ainda é nossa a maior feijoada. Apesar de nem sermos os detentores dos mais loucos, isso não alivia nem um pouco aquilo que me preocupa. É que me parece que é crescente entre nós a mania das grandezas fáceis, em vez de colocarmos tónica no estudo, na dedicação, na perseverança, no trabalho árduo, que tenha resultados para lá do imediato.
Não teremos maiores nem menores capacidades do que outros povos. Não estaremos fadados para o infortúnio e a pobreza por qualquer desígnio superior. E é por isso que temos de corrigir o nosso comportamento – chega de discurso mole e desculpas fáceis. A mudança está em cada um de nós.
Os exemplos de desleixe e falta de esforço são inúmeros, assim como são os de abuso da lei e do poder, de permissividade e de impunidade para quem passa a perna nos outros. É a sociedade dos direitos sem deveres que erigimos tijolo a tijolo sobre areias movediças. É a telenovela «se é bom para mim, é um direito meu».
O mal, inevitavelmente, entrou pelas escolas dentro. Apesar do facilitismo instalado, nunca se copiou tanto nas escolas e nas universidades portuguesas, algo que seria, noutras paragens, motivo de profunda vergonha e expulsão. São cada vez mais os casos de plágio, perpetrado até por gente com responsabilidades educativas. Mas não se atribua à escola a responsabilidade deste desvario, não, porque esse é, mais uma vez, o caminho fácil. O vírus está espalhado por aí, por todo o lado. Apanha-se em casa, na televisão, nas ruas, no trabalho, no parlamento. É uma epidemia – veja-se a promiscuidade galopante entre políticos e interesses – e, como tal, tem que nos envolver a todos num combate sem tréguas.
O caminho mais fácil, o do Chico-esperto, ganhou simpatizantes e até o aplauso do público, que muitas vezes assiste deleitado ao triste espectáculo. Pessoas que espezinham as regras mais básicas de respeito pelos outros, pessoas que dão o golpe nas filas de espera, estacionam nos lugares dos deficientes, não respeitam idosos, conduzem violentamente – teremos certamente o recorde de acidentes na estrada –, não respeitam o silêncio numa biblioteca, atiram lixo das janelas dos carros, fazem trinta-por-uma-linha. Podíamos ir por aí fora sem parar nos caminhos do facilitismo, prova triste do desejo de encontrar uma felicidade fácil e rápida, sem trabalho, sem deveres.
Será assim que se pretende levantar hoje de novo o esplendor de Portugal?
O rapaz que queria ser alguém
Um rapaz de 16 anos andava com sinais comportamentais estranhos. Dizia a mãe que ele devia ter algum problema psicológico, desses que o Freud enunciou, pois só arranjava chatices na escola, e não era melhor a caminho de casa. Faltava às aulas, não estudava, já tinha sido apanhado a copiar, saltava os muros da escola para vadiar na vila e fazer tropelias que lhe granjearam o epíteto de “terrível” – uma vergonha, sobretudo para uma família tão rica e esmerada nos preceitos das aparências sociais.
Afinal, o que poderia estar errado com aquele miúdo cuja educação era, no desabafo da mãe, «tão boa»? «Não lhe dei eu tanto conselho? Não lhe deu o pai quando ele fez asneira? Não somos nós um exemplo?»
A pobre senhora não entendia tamanha injustiça. Sobretudo não entendia como é que os filhos dos vizinhos, seus colegas de escola, gente pobre e humilde, eram bons alunos e, não sendo nenhuns santinhos, os seus estragos não eram por aí além. Foi então que decidiu levá-lo ao psicólogo, o que só por si já era sinal de distinção social lá na terra.
De lá veio mais descansada, mais aliviada com o diagnóstico, que rapidamente comunicou a todos, como se da cura se tratasse. Afinal, não era grave, nem sequer chegava a ser doença, antes pelo contrário: «O psicólogo disse-me que ele até tem muita vontade de ser alguém na vida.»
Na verdade, não sabemos o que o psicólogo lhe terá dito – certamente mais. Talvez algo que se tenha perdido na complexidade da linguagem técnica. Ou terá acontecido que só ouviu aquilo que queria ouvir e dito aquilo que queria dizer.
Pelo resultado da coisa, não compreenderam – especialmente os pais – que é imprescindível mais amor, mais compreensão, mais intimidade, mais tempo, mais comunicação, conselho amigo. Não compreenderam – especialmente o filho – que é preciso esforço, trabalho e dedicação, para «ser alguém na vida».
A superioridade daquela frase, bradada com tamanha ostentação, perdurou na cabeça dalguns dos miúdos lá da rua: será que eles também poderiam «ser alguém na vida?» Tiveram a sorte de lhes terem dito atempadamente que isso é mais do que ter dinheiro e fama rápida. É ter princípios, honestidade, dignidade, é conquistar com seriedade e justiça um lugar entre os outros, e não acima dos outros.
Governo e Igualdade de Oportunidades.
Volto a este assunto já abordado na última crónica para deixar apenas uma estranha nota comparativa: enquanto no nosso governo há apenas 2 ministras em 16 (5 mulheres ao todo em 50 membros), em França há 7 ministras em 15. (2) Vale a pena pensar nisto com seriedade e deixar de lado o discurso fácil do politicamente correcto.
*
*
Artigo publicado hoje no jornal Diário de Aveiro
15 de maio de 2007
Cartas Para Sakhalin - Diário de Aveiro (004)
Entidade DesReguladora para a Comunicação Social.
Todos sabemos da importância dos meios de comunicação social como pilar fundamental de uma sociedade democrática e livre. Neste contexto ganha forte importância a televisão, que entra todos os dias pelas nossas casas dentro. Num país em que se lê ainda muito pouco – o que se estende naturalmente aos jornais –, a televisão ganha contornos especiais no que diz respeito à informação. É ainda, sobretudo para uma larga maioria dos cidadãos, o meio mais importante de comunicação. Com a evolução das novas tecnologias, nomeadamente da web e da televisão por cabo, o cidadão poderá individualizar o acesso à informação, decidindo, escolhendo as suas fontes. Cada um terá, dizem os gurus da comunicação, o seu canal de televisão, o seu jornal pessoal ou conjunto de jornais pessoais, a que acede a partir do seu ecrã de casa (muito mais do que um simples televisor), do seu computador portátil ou do seu telemóvel. O futuro é certamente risonho, mas, como em muitas coisas, tem custos e não é para todos. Só uma minoria, uma elite, poderá aceder a este tipo de serviço e ter condições (clarividência) para uma razoável selecção.
O cenário, ainda que pressentido, faz-nos pensar que a televisão generalista, em sinal aberto, será cada vez mais o grande meio de comunicação das massas (infoexcluídos do milagre comunicacional em acção). Ora, sem querer ser pessimista, bem temos visto o que tem acontecido a esses canais em matéria de programação – telenovelas, “programas da vida real” (?), o espectáculo (às vezes triste) da vida na nossa rua, o desejo de sucesso fácil e de 5 minutos de fama. Isto, que parece ser o paradigma da individualização da comunicação para o povão, tem perigos, e não são poucos.
A ideia de uma televisão (quase) gratuita garantiria um acesso a conhecimento, cultura, informação, ajudando a moldar uma sociedade mais livre, de cidadãos mais activos, mais conhecedores, mais independentes e capazes. A esperança, e o desejo, de que os profissionais que a constroem tenham uma formação de qualidade e um código deontológico que nos permita confiar no seu critério jornalístico e de programação, deveria ser o fio de prumo da sua função social, equilibrando todos os interesses que nela se colocam, mesmos os comerciais ou partidários. Porém, o caminho parece enublado e temos motivo para nos preocupar.
Todos os partidos, sem excepção, têm procurado, à sua maneira e com as “armas” de que dispõem, influenciar os canais de acesso ao povo eleitor, porque ainda é assim que se chega ao poder – e ainda bem! O problema, para mal dos nossos pecados, é que, em vez das ideias e do trabalho, parece ser apetecível acima de tudo a imagem que se cria e transmite de uma suposta realidade.
Vem isto a propósito – o que dava pano para mangas – da Entidade Reguladora para a Comunicação Social, que substituiu a Alta Autoridade (que nunca foi alta nem autoridade). Não é que os senhores deram à estampa um documento que pretende avaliar e regular “o pluralismo político-partidário no serviço público de televisão”? Através do controle do “número e natureza das peças emitidas pela RTP”, para já, querem decidir a percentagem de notícias a que Governo e Partidos Políticos têm direito. E objectivam mesmo as ditas percentagens: Governo e PS ficam com 50%, oposição parlamentar com 48% e não-parlamentar com 2%. Incrível! Pode verificar com os seus próprios olhos num computador perto de si. O texto, a roçar o poético, está no sítio web da ERC.
Sempre julguei que existia liberdade de imprensa em Portugal e que a autoridade para a comunicação social, tenha o nome e os sábios que tiver, devia pugnar por uma informação isenta, rigorosa, mas nunca em função dos votos que os partidos tiveram. Se um partido pouco votado se dinamizar, tiver mais ideias, mais acções, não terá direito a mais cobertura? Não deverá ser do escrutínio jornalístico o valor e interesse público de cada acontecimento? Este tipo de controlo parece mais próprio dos países do terceiro mundo ou das ditaduras iluminadas. Sinceramente!
Governo e Igualdade de Oportunidades.
Depois de ter lido uma bela revista da Comissão para a Igualdade e para os Direitos das Mulheres, estrutura da Presidência do Conselho de Ministros, recordei-me da velha fábula das quotas. E lembrei-me então, qual cidadão interessado, de ir ver a composição do nosso governo para perceber até que ponto palavras são gestos. Surpresa!
Sem ser defensor das quotas, mas reconhecendo que a nossa política teria muito a ganhar com a acção de muito mais mulheres, quis perceber quantas tinham lugar na chefia dos nossos destinos. Não me interessa quantas estão na Assembleia da República – curiosamente representada por uma mulher –, porque isso tem que ver com o “esquema” muito próprio dos partidos, complexo, de ascensão (carreirismo) dos seus militantes. Até se podia dizer que elas não gostam de militar, não aparecem, o que também sabemos ter outros contornos. Mas interessou-me antes saber quantas estavam no poder executivo do país, porque isso depende apenas do convite de quem o encima e da competência das mulheres – nada obriga a que sejam militantes. Pelo que sabemos, e até a julgar pelo que se passa nas universidades, bem podemos sublinhar as suas capacidades e estranhar os resultados da pesquisa.
Em 50 membros do governo, de ministros a sub-secretários de Estado, incluindo o primeiro-ministro, apenas 5 são mulheres! Duas ministras, a da educação e a da cultura, a que se juntam 3 secretárias de Estado! E está tudo dito.
Fiquei ainda com uma dúvida. Que significado terá o facto de quase trinta serem professores do ensino superior? Não será certamente a proposta de lei do governo sobre o Regime Jurídico das Instituições de Ensino Superior agora enviada ao parlamento, que parece uma excessiva e controleira machadada na autonomia universitária. Logo agora, sim senhor.
Todos sabemos da importância dos meios de comunicação social como pilar fundamental de uma sociedade democrática e livre. Neste contexto ganha forte importância a televisão, que entra todos os dias pelas nossas casas dentro. Num país em que se lê ainda muito pouco – o que se estende naturalmente aos jornais –, a televisão ganha contornos especiais no que diz respeito à informação. É ainda, sobretudo para uma larga maioria dos cidadãos, o meio mais importante de comunicação. Com a evolução das novas tecnologias, nomeadamente da web e da televisão por cabo, o cidadão poderá individualizar o acesso à informação, decidindo, escolhendo as suas fontes. Cada um terá, dizem os gurus da comunicação, o seu canal de televisão, o seu jornal pessoal ou conjunto de jornais pessoais, a que acede a partir do seu ecrã de casa (muito mais do que um simples televisor), do seu computador portátil ou do seu telemóvel. O futuro é certamente risonho, mas, como em muitas coisas, tem custos e não é para todos. Só uma minoria, uma elite, poderá aceder a este tipo de serviço e ter condições (clarividência) para uma razoável selecção.
O cenário, ainda que pressentido, faz-nos pensar que a televisão generalista, em sinal aberto, será cada vez mais o grande meio de comunicação das massas (infoexcluídos do milagre comunicacional em acção). Ora, sem querer ser pessimista, bem temos visto o que tem acontecido a esses canais em matéria de programação – telenovelas, “programas da vida real” (?), o espectáculo (às vezes triste) da vida na nossa rua, o desejo de sucesso fácil e de 5 minutos de fama. Isto, que parece ser o paradigma da individualização da comunicação para o povão, tem perigos, e não são poucos.
A ideia de uma televisão (quase) gratuita garantiria um acesso a conhecimento, cultura, informação, ajudando a moldar uma sociedade mais livre, de cidadãos mais activos, mais conhecedores, mais independentes e capazes. A esperança, e o desejo, de que os profissionais que a constroem tenham uma formação de qualidade e um código deontológico que nos permita confiar no seu critério jornalístico e de programação, deveria ser o fio de prumo da sua função social, equilibrando todos os interesses que nela se colocam, mesmos os comerciais ou partidários. Porém, o caminho parece enublado e temos motivo para nos preocupar.
Todos os partidos, sem excepção, têm procurado, à sua maneira e com as “armas” de que dispõem, influenciar os canais de acesso ao povo eleitor, porque ainda é assim que se chega ao poder – e ainda bem! O problema, para mal dos nossos pecados, é que, em vez das ideias e do trabalho, parece ser apetecível acima de tudo a imagem que se cria e transmite de uma suposta realidade.
Vem isto a propósito – o que dava pano para mangas – da Entidade Reguladora para a Comunicação Social, que substituiu a Alta Autoridade (que nunca foi alta nem autoridade). Não é que os senhores deram à estampa um documento que pretende avaliar e regular “o pluralismo político-partidário no serviço público de televisão”? Através do controle do “número e natureza das peças emitidas pela RTP”, para já, querem decidir a percentagem de notícias a que Governo e Partidos Políticos têm direito. E objectivam mesmo as ditas percentagens: Governo e PS ficam com 50%, oposição parlamentar com 48% e não-parlamentar com 2%. Incrível! Pode verificar com os seus próprios olhos num computador perto de si. O texto, a roçar o poético, está no sítio web da ERC.
Sempre julguei que existia liberdade de imprensa em Portugal e que a autoridade para a comunicação social, tenha o nome e os sábios que tiver, devia pugnar por uma informação isenta, rigorosa, mas nunca em função dos votos que os partidos tiveram. Se um partido pouco votado se dinamizar, tiver mais ideias, mais acções, não terá direito a mais cobertura? Não deverá ser do escrutínio jornalístico o valor e interesse público de cada acontecimento? Este tipo de controlo parece mais próprio dos países do terceiro mundo ou das ditaduras iluminadas. Sinceramente!
Governo e Igualdade de Oportunidades.
Depois de ter lido uma bela revista da Comissão para a Igualdade e para os Direitos das Mulheres, estrutura da Presidência do Conselho de Ministros, recordei-me da velha fábula das quotas. E lembrei-me então, qual cidadão interessado, de ir ver a composição do nosso governo para perceber até que ponto palavras são gestos. Surpresa!
Sem ser defensor das quotas, mas reconhecendo que a nossa política teria muito a ganhar com a acção de muito mais mulheres, quis perceber quantas tinham lugar na chefia dos nossos destinos. Não me interessa quantas estão na Assembleia da República – curiosamente representada por uma mulher –, porque isso tem que ver com o “esquema” muito próprio dos partidos, complexo, de ascensão (carreirismo) dos seus militantes. Até se podia dizer que elas não gostam de militar, não aparecem, o que também sabemos ter outros contornos. Mas interessou-me antes saber quantas estavam no poder executivo do país, porque isso depende apenas do convite de quem o encima e da competência das mulheres – nada obriga a que sejam militantes. Pelo que sabemos, e até a julgar pelo que se passa nas universidades, bem podemos sublinhar as suas capacidades e estranhar os resultados da pesquisa.
Em 50 membros do governo, de ministros a sub-secretários de Estado, incluindo o primeiro-ministro, apenas 5 são mulheres! Duas ministras, a da educação e a da cultura, a que se juntam 3 secretárias de Estado! E está tudo dito.
Fiquei ainda com uma dúvida. Que significado terá o facto de quase trinta serem professores do ensino superior? Não será certamente a proposta de lei do governo sobre o Regime Jurídico das Instituições de Ensino Superior agora enviada ao parlamento, que parece uma excessiva e controleira machadada na autonomia universitária. Logo agora, sim senhor.
Nota: Texto publicado hoje na edição impressa do Diário de Aveiro. A opinião expressa nestas crónicas apenas vincula o seu autor.
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